sábado, 25 de abril de 2015

Tudo sobre Iya mi Osoronga.

Assentamento de Iya mi Osoronga na Casa de Orunmila em Areia Branca-BA.
Autor: Babalawo Ifagbaiyin Agboola

Quando a imagem negativa precedi o sujeito o texto por mais elucidativo que seja é incapaz de mudar anos de falta de informações confiáveis.

Escrever sobre Iya mi deveria ser um compromisso de todo o sacerdote do culto ao Orixá, é nossa obrigação desmistificar e enaltecer as divindades do panteão Yoruba.

O Orixá é a razão de culto, é amor, é fé e o ideal é adotar uma postura de respeito e carinho, se não for assim não tem sentido, por essa razão vou escrever mais uma vez sobre esse Orixá maravilhoso.
Falar sobre Iya mi é transitar pelos textos dos odus Osá meji, Ose Oyeku, Irete meji, Ogbe Sa e Irete Owonrin e Irete Ogbe, embora Iya mi se faça se presente em todos os odus.

Exu, Orunmila e Iya mi respondem nos duzentos e cinquenta e seis odus, porém em alguns é exaltada a necessidade de pactuar com Iya mi de forma a criar uma aproximação do indivíduo com a informação e a ritualística considerando que a energia já o acompanha desde o nascimento.

Vejo constantemente supostos conhecedores falando mal de Orixá e de determinados odus um desses é Osá meji famoso entre os incultos como odu negativo, é por essa razão que vamos começar falando do aspecto positivo contido nesse odu e no culto a Iya mi Osoronga.

No odu Osá meji, Iya mi Odu quando chega a terra age sem limites desrespeitando os Orixás a ponto de vestir a roupa de Egungun, nesse odu Iya mi encontra dificuldade para dançar com a roupa de Egungun e Obàtálá introduz em uma incisão do tecido com uma rede para que permita a ela conseguir enxergar.

É evidente que posterior a essas confusões algo tinha que ser feito e Iya mi deveria ser acalmada então após uma consulta a Orunmila, Obàtálá é aconselhado a dividir seu alimento com Iya mi. A água do igbin (omi ero), oferecida para Iya odu que imediatamente adota como o seu principal alimento, o igbin, com esse ato Obàtálá acalma Iya Odu.

O trabalho de um Babalawo é interpretar os versos de ifá, considerando o citado acima estamos falando de um convívio harmonioso entre um personagem masculino e um feminino, a água do igbin é conhecido como a água que acalma, sendo assim esse odu fala de um período de paz e prosperidade.

Já no odu Irete Owonrin, Obàtálá tenta ludibriar Iya mi se negando a pagar um tributo para a grande mãe ancestral, Iya mi com habilidade percebe a armação e se antecipa ao embuste criado.
Interpretando essa passagem do Odu Irete Owonrin percebemos que Iya mi só quer o que é dela por direito deixando bem claro que ela não se antepõe aos Orixás ou aos seres humanos.

Em uma linguagem popular se fomos comparar o Orun a uma empresa usando assim uma didática de fácil assimilação o processo seria composto da seguinte forma:

- Olódùmarè seria o equivalente ao presidente da empresa, que teria imediatamente dois diretores de total confiança.

- Orunmila seria o equivalente a um diretor administrativo que identifica e orienta a questão.

- Iya mi seria o equivalente a um diretor executivo com a função de dar andamento as orientações 
fornecidas por Orunmila, sendo assim o destino por nós escolhido diante de Ajala antes de vir para terra é testemunhado por Orunmila e informado a Iya mi.

-Iya mi não interfere na escolha de nosso destino, ela segue as orientações de Orunmila liberando os seus assistentes (ajoguns), para executarem o trabalho.

Os ajoguns, iku(morte), arun (doença), ejo (problemas),etc, são liberados por Iya mi em quase a totalidade das situações correspondendo a uma escolha feita por nós mesmos, não é Iya mi que é ruim ou perversa ela exerce uma função assim como os demais Orixás.

As pessoas iniciadas em Orixá não podem ser sepultadas em gavetas o ideal é que seus corpos sejam restituídos a terra, sendo assim o ajogun iku(morte), não é ruim, ele exerce uma função determinada por Iya mi porém em data quase sempre escolhida por nós.

No odu Ogbe Yonu, Orunmila orienta os Orixás para oferecerem efun e osun, além de várias folhas para Iya mi Osoronga, Iya mi se compromete a não atacar os filhos dos Orixás.

No odu Ogbe Sa, Iya mi se compromete com Orunmila em fazer o bem quando chega a terra, ela diz a Orunmila, que seus filhos vão ter prosperidade e felicidade.

No odu Irete meji Orunmila viaja para a cidade de Ota e descobri o segredo das Iya mi, ele oferece o prato predileto delas e eles se tornam amigos.

No odu Irete Ogbe, Iya Odu se torna a esposa de Orunmila que reconhece o poder de Iya quando ela invoca o pássaro Aragamágo como sendo muito superior ao seu.

No odu Ose Oyeku Orunmila orienta Ogun, Obaluaye, Oduduwa e Obàtálá para que façam oferenda para Iya mi que reconhece os mesmos como filhos.

A figura materna de Iya mi é confirmada em vários versos de ifá, uma mãe tem o dever de zelar pelos seus filhos, não tem o dever de agradá-los, nem tudo que uma mãe faz é compreendido por seus descendentes.

Iya mi é uma mãe zelosa e poderosa que habita dentro de cada um de nós, em nossas vísceras ela pode se manifestar de maneira positiva ou negativa. Iya mi pode criar um mal-estar para impedir que a pessoa saia de casa e seja vítima de algo que não faça parte de seu destino, o problema intestinal certamente vai ser visto de forma negativa, mas será necessário para manter a pessoa longe do perigo.

A igreja católica ao longo da história combateu a figura feminina por temer a capacidade que só as mulheres têm, que é abrigar uma nova vida dentro delas, as mulheres são muito superiores aos homens em vários sentidos, essa é a verdadeira razão do combate histórico a figura feminina. Iya mi foi uma das vítimas desse processo histórico.

Para cultuar Iya mi é necessário amar e respeitar a figura feminina, respeitar as mães, as irmãs, as filhas, respeitar a natureza e o poder de criação, Iya mi é a própria vida, é quem nos gerou, é quem nos abrigou no passado, é que nos abriga no presente, é com certeza quem vai nos abrigar em um futuro quando passarmos dessa para uma outra.

Algumas pessoas em seu odu de nascimento necessitam se aprofundar no culto a Iya mi, mais do que outras, isso se deve a própria história de cada odu e ao destino escolhido pela pessoa, de qualquer forma o culto a Iya mi pode ser praticado por qualquer um, agradar aos nossos antepassados femininos é muito mais fácil do que parece. Para agradar Iya mi temos que estar em harmonia com a natureza e com os nossos semelhantes, a essência do culto a Iya mi é a força feminina maternal que gera e mantém a vida, manter a vida é como amamentar o recém-nascido, é conservar a essência e estimular o desenvolvimento do que temos de melhor.

Iya mi é a força da vida é a capacidade de criar, é a capacidade de amar, é a manutenção da vida, é o leite que alimenta o recém-nascido é o desenvolvimento sadio é a evolução, é a capacidade de renovar como forma de perpetuar a vida.

Em uma arvore grande e sadia podemos observar centenas de galhos como extensão do tronco, podemos ver milhares de folhas e frutos como extensão dos galhos, os frutos dentro deles têm centenas de sementes que geraram outras arvores.

 É esse ciclo da vida que representa Iya mi a arvore é só um exemplo, quando estamos diante de uma mulher gravida esse mesmo ciclo pode ser observado, assim é a história, nada acontece sem essas senhoras.

Me causa espanto a falta de conhecimento sobre Iya mi, eu acredito que com o passar do tempo muito desses mitos devem desaparecer.


 O certo é que o tempo para a falta de informação está terminando.



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