quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A casa do orixá e Ifá.



Autor: Olúwo Ifagbaiyin Agboola.

No ano de 1981 comecei a viajar divulgando a religião dos òrìsà, durante esse período tive a oportunidade de conhecer alguns países, e grande parte do território nacional brasileiro, nessas viagens conheci várias casas de òrìsà.

 Observei situações que me deixaram em algumas ocasiões tristes e em outras em uma posição bastante desconfortável.

 Testemunhei equívocos nas casas de òrìsà que nem sempre são frutos da falta de informação, muitas vezes a vaidade e a pretensão são as grandes responsáveis por esses erros.

Não temos a pretensão de apresentar esse trabalho como sendo a única e exclusiva verdade sobre o assunto, vamos pautar a escrita pela lógica e o respeito à herança religiosa dos yorùbás em nosso país.
A casa de òrìsà normalmente é uma propriedade fruto do trabalho de pessoas que empregam o seu ganho para criar um espaço para o òrìsà, sendo assim a lógica indica que o proprietário é a divindade e não o homem.

Vamos explicar essa situação com exemplos do que acontece no dia a dia das casas de òrìsà:
1-       Se o sacerdote tem uma filha que vai se casar e ele decidir convidar o jovem casal para que habitem um dos espaços na área da casa de òrìsà é evidente que esse convite só pode ser formulado depois de uma consulta com resposta positiva dos òrìsàs.

A mesma posição deve ser mantida para qualquer indivíduo que possa vir a ser iniciado ou residir na área das divindades, tudo que possa influenciar no andamento do Egbe deve ser submetido à apreciação do proprietário do espaço, o òrìsà.

2-      Outro exemplo que podemos citar é a pretensão de uma ampliação ou alteração na construção, sem a consulta ao òrìsà, isso seria impossível, embora nós já tenhamos presenciado inúmeras situações que o sacerdote toma as decisões sem ouvir a divindade.

3-      É muito comum no Brasil após a morte do sacerdote titular de um terreiro que haja uma disputa entre os herdeiros consanguíneos e os herdeiros ligados a religião.

Nesse aspecto gostaríamos de deixar bem claro que a religião dos òrìsà é uma forma de manter acesa a chama ancestral, sendo assim, sempre, sem exceção quando houver duas pessoas com o mesmo nível de informação e cargo religioso em litigio para ocupar uma função, a tendência natural é que aquele que tem grau de parentesco seja escolhido em uma orientação espiritual e não aquele que é um herdeiro exclusivamente religioso.

4-      O espaço chamado casa de òrìsà por uma questão obvia destina o seu melhor aposento para o òrìsà patrono daquela instituição, ou para um grupo de òrìsà cultuados naquele local.
Se a divindade é a proprietária é natural que o melhor espaço da propriedade seja destinado a ela, fato esse confirmado no dia a dia das casas de religião onde quando visitadas, o visitante primeiro saúda o òrìsà para depois saudar o sacerdote.

Se fosse o inverso o homem seria, mais importante que o seu ancestral e a palavra religião não teria sentido, já que na tentativa de nos religarmos ao divino nos submetemos a uma hierarquia bastante clara onde o òrìsà está em primeiro lugar.

5-      A questão da propriedade e da sua titularidade das casas de òrìsà habita os tribunais há muito tempo, embora o ideal fosse que pessoas religiosas que se dizem sacerdotes não precisassem recorrer a esse tipo de debate. Seria de bom tom que o religioso seguisse e respeitasse a decisão dos òrìsàs diante de qualquer tipo de litigio.

As controvérsias não acontecem somente nas questões da titularidade e da propriedade em si, é comum presenciarmos a disputa da titularidade da função religiosa independente da propriedade.
Presenciamos inúmeras vezes situações que criam uma enorme confusão diante da sociedade, um exemplo é o duplo sacerdócio em uma mesma propriedade. Casais iniciados para a mesma função desempenhando em um mesmo espaço trabalhos paralelo. Quando a regra é simples o mais antigo e mais capacitado sempre deveria ser o titular.

6-      Existe também uma grande polemica quando o herdeiro escolhido de uma casa de òrìsà não está capacitado, embora seja bem fácil de compreender a função do responsável interino, que ocupa a titularidade com o tempo pré-estabelecido para a capacitação do real herdeiro.
Se não fosse só a questão financeira e jurídica o número de situações presenciadas por nós não nos causaria tantas surpresas. Porém um agravante é bastante comum, supostos òrìsàs ou divindades em visita aos seus descendentes que muitas vezes terminam advogando em causas de seus simpatizados criando uma imagem que prejudica muito a história de gerações e gerações de sacerdotes.

A coerência e o respeito assim como a ética, comumente são deixados para trás por pessoas movidas por ambição e ganância, isso não deveria acontecer nos meio religioso, mas infelizmente essas situações são bastante comuns.


 Esses fatos não aconteceriam ou seriam facilmente administrados se a formação dos líderes religiosos fosse mais exigida, enquanto isso não acontece os tribunais substituem os òrìsàs nas decisões.







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