segunda-feira, 9 de maio de 2016

Iniciação em òrìsà e Ifá.




Autor: Babalawo Ifagbaiyin Agboola

Infelizmente já não me surpreende mais o grande número de pessoas que se afastam do culto a òrìsà, a grande maioria delas tenta de toda forma encontrar uma solução para os seus problemas, porém depois de muito tentar, terminam se afastando de seus sacerdotes e muitas vezes até mesmo da religião.

Em quase a totalidade dos casos, podemos observar dois fatores específicos que contribuem para que o fato acima descrito aconteça.

 O primeiro é o quase total desconhecimento da verdadeira proposta religiosa do culto á òrìsà.
 O segundo o despreparo e a falta de critério de muitos dos sacerdotes.

No passado postamos um texto chamado “Religião de regras,” na tentava de explicar muitas das falhas ocorridas ao longo do tempo em nossa religião. Nesse texto vamos seguir um raciocínio paralelo na tentativa de evidenciar as falhas que constatamos no dia a dia, e também considerando as experiências adquiridas no atendimento de ex- praticantes do culto ao òrìsà em varios estados de nosso país.

A grande maioria das pessoas entra para a religião buscando solução para problemas muitas vezes incluídos em uma demanda ansiosa por respostas que nunca vão ser encontradas.

 O sagrado pode ser acessado, mas jamais vai ser desmistificado sem estudo e dedicação, a falta de cultura e o desconhecimento implicam diretamente na exacerbação do inimaginável como solução.

A máxima de que se não há uma resposta, se inventa uma, contribui para o descredito de muitos dos sacerdotes ocasionando diretamente o afastamento de milhares de adeptos.

Relativo aos dois elementos citados acima como desencadeadores dos fatos em andamento abordarei cada situação há seu tempo iniciando pelos fatos que comprometem o desenvolvimento da relação iniciado e iniciador pelo iniciado ou adepto.
Sempre considerando a boa vontade para explicar os temas em discussão, embora não tenhamos a intenção de figurar como donos da verdade. A nossa opinião é fundamentados naquilo que acreditamos sempre dispostos a ouvir outras opiniões.

Iniciado ou adepto:

- A expectativa criada em nossa religião para as soluções divinas não são sentidas no catolicismo, nem no judaísmo e nas demais religiões, seria porque o nosso Deus é mais poderoso que o das demais religiões?

 Ou seria que na mente de nossos adeptos foi criada uma ilusão sobre a temática da influencia divina em nosso dia a dia?

É bem verdade que Deus é um só, então prefiro considerar a incapacidade de raciocínio de nossos adeptos gerada por uma quase total falta de informação, implicando diretamente na decepção e no afastamento.

Se Deus e os òrìsàs estivessem a nossa disposição para resolver todas as nossas dificuldades nas áreas sentimentais, financeiras e emocionais, a pergunta que faço é, qual seria o motivo para vivermos?
Quando você sabe o que esperar da sua fé a decepção com o divino não existe, a felicidade se acentua e o destino é visto com a certeza que a quase totalidade dos acontecimentos foram escolhas nossas.

A força superior pode ser invocada, ela nos ouve e nos responde, infelizmente na grande maioria das vezes não escutamos a sua voz.

O iniciador (sacerdote):

Abordaremos a questão do sacerdócio nesse texto exclusivamente ao tocante do conhecimento e do preparo do oficiante dos rituais, considerando que a ética já foi abordado por nós no texto, “A ética e o sacerdócio”.

Vamos analisar a iniciação como fato isolado do elemento gerador do afastamento dos adeptos de nossa religião considerando o relato dos mesmos, embora em nossa opinião, tais fatos se originem em uma gama bastante variada de implicações.

Tomaremos como exemplo uma iniciação no òrìsà Ògún.

Partindo do principio que a teologia yoruba explica que os òrìsàs se originam dos odus supondo que o iniciador esteja se orientando pelos versos de ifá, sendo assim haveria inúmeras formas de acesso ao mesmo òrìsà, contida em odus com conteúdos diferenciados.

Sendo assim se o iniciador acessar o òrìsà Ògún no odu Iwori méjì, o conflito armado envolvendo a vida do iniciado poderá se tornar uma constante em seu dia a dia.

Já sem o devido preparo a mesma iniciação do òrìsà Ògún no odu Ògúndá Òfún, implicará em situações que poderão atrair o ilícito para o caminho do iniciado.

Por outro lado uma iniciação do òrìsà citado acima no odu Ògúndá Ìrosùn se bem aplicada devera implicar diretamente em prosperidade e ascensão do adepto.

A quantidade de odus que podem ser usados para culto do mesmo òrìsà é muito grande e a sua variação implica em situações recorrentes na vida do iniciado, positivas ou até mesmo negativas.
Imaginem que se em uma consulta o odu é fator determinante, o que dizer de uma iniciação, somente um profundo conhecimento sobre Ifá pode indicar o caminho a seguir.

Vamos observar os resultados diferentes de uma mesma iniciação em pessoas diferentes sem que tenhamos uma explicação logica.
Considerando o quase total desconhecimento sobre odu em nosso país, isso explicaria o grande numero de decepções com as iniciações.

O mesmo òrìsà que é positivo para Pedro pode não ser para João, as mesmas condições oferecidas para João podem ser insuficientes para o Orí de Pedro.

Imaginemos então a mesma iniciação no òrìsà Ògún, por despreparo ser constituída tomando como base o odu Ògúndá Iwori que fala da fúria desses òrìsà, o desconhecimento e o despreparo poderiam ser catastróficos.
Na verdade se diminuirmos os anseios dos iniciados lhes oferecendo mais informações e capacitarmos os iniciadores, o fluxo de abandono da nossa religião em quase a sua totalidade será contido.
 Essa é a razão porque insisto em uma divulgação da palavra de Òrúnmìlà por bons sacerdotes.

Bàbàláwos bem preparados podem reverter o processo de esvaziamento das casas de òrìsàs, para isso é necessário o entrosamento entre adeptos e os sacerdotes de ifá e òrìsà, sem isso jamais vamos poder explicar para a população aquilo que elas anseiam dos òrìsàs.

Sem um profundo estudo dos versos de ifá tentar justificar o que se desconhece é menosprezar os anseios daqueles que tem fé.





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