A Religião dos Òrìsà entre os Yorúbà


A Religião dos Òrìsà entre os Yorúbà

Babalawo Ifagbaiyin Agboola

Entre os yorúbà, religião é um problema complexo. Um estrangeiro que se interesse pelo assunto pode encontrar múltiplos objetos de culto. Trata-se da representação dos famosos Òrìsà.
Todos os Òrìsà são visualizados como seres humanos e possuem uma origem terrestre: Èsù, por exemplo, é originário de Igbeti; o Orixá Oko descende da cidade de Irawô; Ògún vem da cidade de Ilá e assim por diante.

Após sua morte um homem pode tomar-se um Òrìsà para seus filhos, que passam a cultuar sua memória. O fundador de cada família, por exemplo, sempre se transforma num objeto de culto para seus descendentes. Alguns homens por seu valor pessoal, tomam-se Òrìsà cultuados por toda a nação. De heróis locais passam a heróis nacionais.

A maioria dos cultos a Òrìsà são circunscritos a comunidades locais, sendo muito poucos de importância nacional. Os Òrìsà locais são considerados heróis do grupo que os venera e são identificados por sua natureza, característica do território em que são cultuados. As classes principais dos objetos de culto são os rios e os montes. Um exemplo de monte cultuado em nível local é Oke Ibadan, cujas cerimônias se realizam atualmente na cidade de Ibadan, um dos maiores centros do país, situado ao norte de Lagos. No dia do culto, não se acendem fogos.

Um exemplo do herói elevado á categoria de Òrìsà e cultuado pelo povo de Ijesa é Obalogun, que, segundo a tradição, salvou aquele o povo dessa cidade contra os inimigos de Nupe.

Há, entretanto, alguns Òrìsà cultuados por toda a terra dos yorúbà, sendo os seis mais importantes Òrúnmìlà, Èsù, Òbàtàlá, Òsanyìn, Ògún e Sàngó, que também são venerados em outros países do mundo.
A religião da família constitui-se de vários cultos. Uma vez por ano cultuam-se os espíritos dos mortos. As vezes, por sugestão onírica, realizam-se-lhes sacrifícios. O sentimento de um antepassado é formado por vários objetos usados por ele e se localiza onde está enterrado. Este local se denomina “Oju ibo” (local do culto). As famílias costumam venerar os genitores, fazendo-lhes sacrifícios sobre suas sepulturas.

Além do culto aos antepassados, as famílias veneram outros Òrìsà, como Èsù, Òrúnmìlà, etc. Muitas famílias veneram um Òrìsà particular, chamado Òrìsà da família. Podem-se adorar, por exemplo, irmãos gêmeos falecidos. Quando à morte de um gêmeo, sucede-se a uma doença ou em estado de mau-humor, faz-se necessário construir a imagem do morto e oferecer-lhe sacrifícios. O local para sacrifícios denomina-se “ibúmu”, segundo, a tradição, após a morte de gêmeos, a mãe deve evitar a procriação por um bom tempo.

A veneração de um Òrìsà particular por uma família é muitas vezes circunstancial.
Quando, por exemplo, um raio mata alguém de uma família na qual exista um sacerdote de Sàngó, é costume os outros sacerdotes do mesmo Òrìsà realizarem alguns rituais na casa do morto. Outro membro daquela família, então, é imediatamente iniciado no sacerdócio de Sàngó.
Ser Òrìsà significa ter sido escolhido entre os antepassados para objeto de culto.
Dessa forma, é muito improvável que algum yorúbà não cultue um Òrìsà. A maioria das pessoas veneram, pelo menos, Òrúnmìlà, Òrìsà universal, em intervalos de cinco dias. As mulheres têm o hábito de cultuar o Òrìsà Orí, que é o Òrìsà da sorte. Quando a noiva deixa a sua casa para dirigir-se à do marido, reverencia o Òrìsà Orí, de forma a ter sorte no casamento. Os símbolos desse Òrìsà, entre os quais 41 búzios agulhados conjuntamente, são mantidos em seu santuário.

É importante ressaltar que uma mesma pessoa pode cultuar mais de um Òrìsà, dentre os cerca de mais de 400 existentes. Alguém que cultue o Òrìsà da selva, por exemplo, pode igualmente venerar Òsóòsì ou Ògún. Considera-se que eles se liguem uns aos outros.

Por fim, pode-se dizer que a associação de alguns Òrìsà a elemento da natureza não implica em que os crentes se identifiquem com estes no momento do culto. Na prática, veneram a memória desses Òrìsà enquanto homens que viveram sobre a Terra em tempos remotos. A associação desses Òrìsà à natureza foi portanto acidental. Quando Oya é cultuada, por exemplo, pensa-se em suas habilidades, outrora enquanto mulher, de emitir fogo pela boca; ao se cultuar Òsun, não se rende homenagem ao rio que leva seu nome, mas a mulher que, um dia, transformou-se em Òrìsà. Assim, os cultuadores de Sàngó o invocam menos com o propósito de venerar o raio ou o trovão do que honrá-lo pelo homem que fora, capaz de empregar esses recursos naturais.

Autor: Prof. Michael Ademola Adesoji