terça-feira, 23 de março de 2021

Curso Filosofia e Teologia Yoruba - Módulo Inicial

 



Escola Superior de Ifá (Èsì)

 Curso de Filosofia e Teologia Yorùbá

 Módulo Inicial


Aula (01) - Jogo de búzios não é Ifá.

A influência da população escrava trazida para o Brasil na época da colonização portuguesa é evidente nos hábitos de nosso povo, na música, na culinária e na forma alegre de viver de um povo que acredita em Òrìṣà.

Consultar os Òrìṣàs através do jogo de búzios em nosso país é uma coisa muito comum, mas não é Ifá.

Existe a necessidade de esclarecer os nossos leitores, porque equivocadamente as pessoas seguem dizendo que consultaram Ifá, quando na verdade consultaram Ọ̀ṣun.

Oráculo

A consulta ao conhecido jogo de búzio é muito diferente de uma consulta a Ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou Ikin, no jogo de búzio o Òrìṣà que orienta o consulente é Ọ̀ṣun, e em uma consulta a Ifá, quem orienta o consulente é Ọ̀rúnmìlà.

Jogo de Búzio

O conhecido jogo de búzio é conhecido no território Yorùbá pela denominação Ẹ̀rindílógún, essa prática é desenvolvida com uso de dezesseis pequenos caramujos como instrumento de consulta ao Òrìṣà Ọ̀ṣun.

Ẹ̀là

Na Religião Tradicional Yorùbá, um mesmo Òrìṣà tem vários nomes, Ọ̀rúnmìlà é um Òrìṣà que quando atua na intuição do sacerdote recebe o nome de Ẹ̀là.

Ọ̀rúnmìlà

Ọ̀rúnmìlà tem vários nomes, o mais conhecido é Ifá, essa denominação acontece quando Ọ̀rúnmìlà é invocado em forma de Oráculo.

Ifá

 O Oráculo de Ọ̀rúnmìlà através dos odùs e dos versos sagrados é conhecido como Ifá.

Odù

 O funcionamento do oráculo é baseado em elementos conhecidos como odùs, que constituíram a criação do universo sobre as orientações de Deus (Olódùmarè). Todos Òrìṣàs, assim como todos os seres humanos e todos os elementos da natureza nascem dos odùs.

A palavra

As palavras de Ọ̀rúnmìlà são sagradas e constituem uma vertente de infinita sabedoria como extensão de Deus que recebe a denominação de Ifá.

Versos de Ifá

Todo odù é composto de inúmeros versos que contam histórias dos Òrìṣàs e de vários personagens que retratam a palavra de Ọ̀rúnmìlà.

O Sacerdote

Conta a história que entre todos os discípulos de Ọ̀rúnmìlà o que mais se destacou chamava-se Agbọnnìrègún, esse sacerdote é conhecido como a reencarnação de Ọ̀rúnmìlà.

Bàbáláwo

O Bàbáláwo é o sacerdote que consulta Ọ̀rúnmìlà através do oráculo conhecido pelo nome de Ifá com um instrumento conhecido pelo nome de Ọ̀pẹ̀lẹ̀.

Ọ̀pẹ̀lẹ̀

Instrumento usado nas consultas a Ifá que consiste em uma espécie de corrente com quatro sementes cortadas a o meio.

Ikins

Os ikins são uma espécie de semente de palmeira que também é usado por Bàbáláwos e Ìyánífás como Oráculo de Ifá.

Ìyánífás

As Ìyánífás são sacerdotisas de Ọ̀rúnmìlà que também consultam a Ọ̀rúnmìlà com o Oráculo de Ifá, Ọ̀pẹ̀lẹ̀ e Ikin.

A Testemunha

De acordo com a Religião Tradicional Yorùbá, Ọ̀rúnmìlà é o único Òrìṣà que estava presente quando escolhemos o nosso destino, Ọ̀rúnmìlà é aquele que tudo sabe.

Conforme o Odù Ìwòrì Òdí toda pessoa pode ser iniciada em Ifá, não devemos confundir com ser um Bàbáláwo (sacerdote de Ifá).

Esse texto fala de iniciação e não de sacerdócio.

Odu Ìwòrì odi

Kosi abiyamo ti ko lee bi Awo l’omo,

Kosi abiyamo ti ko lee bi Orunmila.

Baba eni, bioba bi’ni ni pipe,

Bopetiti, a tun nbi Baba eni l’omo’ Yeye.

Eni, bioba bi’ni ni pipe,

Bopetiti, a tun nbi Yeye eni l’omo.

A daa f’Orunmila, ti o wipe:

Oun maa m’Orun bo wa si aye,

Oun maa mu Aye lo s’Orun.

Ki o baa le se bee dandan,

IFA ni ki o ru ohun-gbogbo ni mejimeji,

Abo ati Ako bayi

Agbo kan, Agutan kan,

Obuko kan, Ewure kan, Akuko-adiye kan,

Agbebo-adiye kan; ati beebee lo. O gbo o

rubo.

 Bee ni aye nbisii ti won si nre sii.

 

Tradução:

Odu Ìwòrì odi

Não existe nenhuma mulher que dê à luz a filhos que não possa dar à luz a um Sacerdote de Ifá.

Não existe nenhuma mulher que dê à luz a filhos que não possa dar à luz a Ọ̀rúnmìlà.

Nosso pai, se ele nos dá à luz em plenitude, inevitavelmente nós devemos em tempo dar à luz a ele em retribuição.

Nossa mãe, se ela nos dá à luz em plenitude, inevitavelmente nós devemos em tempo dar à luz a ele em retribuição.

O Ifá foi consultado por Ọ̀rúnmìlà, quando ele disse que “Ele trará os Céus abaixo para a Terra, Ele trará a Terra acima para os Céus.”

De forma que ele possa realizar com sucesso sua missão, a Ele foi dito para oferecer tudo em dois, um macho e uma fêmea.

Um carneiro e uma ovelha, um bode e uma cabra, um galo e uma galinha etc.

Ọ̀rúnmìlà escutou, prestou atenção, obedeceu e sacrificou.

Assim a Terra tornou-se frutífera e multiplicou grandemente.

Olúwo Ifagbaiyin Awolola Agboola

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Aula (02) - Ifá x Elénìnì

Autor: Olúwo Ifagbaiyin Agboola

Nos últimos anos se tornou muito comum ouvir dizer que diminuiu a qualidade do ensino nas escolas, também se ouvi muito falar que diminuiu a segurança e que aumentou muito o risco de assalto.

Além disso o perigo no trânsito aumentou muito e os acidentes quase que triplicaram nos últimos anos, fala-se que os alimentos nunca estiveram com os preços tão elevados.

Os historiadores, os economistas e os cientistas políticos afirmam que existe uma grande possibilidade que aconteça a terceira guerra mundial.

A soma dos fatores acima citados exerce uma enorme pressão no homem e o resultado disso é o aumento de pessoas com distúrbios do sistema nervoso.

A Religião Tradicional Yorùbá classifica de forma diferente esses problemas da vida moderna considerando os fatores de influência como Ajogúns e Elénìnì.

- AJOGÚNS: elementos externos que podem penetrar na mente e no corpo do homem influenciando a sua qualidade de vida.

 - ELÉNÌNÌ: elemento interno que se desenvolve na mente limitando o desenvolvimento e a evolução.

Para as pessoas que não cultuam Òrìṣàs e não conhecem as palavras iorubanas citadas acima:

Os Ajogúns são a morte, as doenças e os problemas de um modo geral.

Elénìnì é o desanimo, as frustações e os traumas que ao longo do tempo desenvolvem bloqueios e privações no dia a dia.

Sempre me fazem a mesma pergunta quando abordo esse tema, é possível mesmo diante de tantos acontecimentos externos manter a paz interna?

Esse texto é uma forma de explicar de acordo com a filosofia religiosa Yorùbá como isso é possível.

Primeiramente através das iniciações é possível desenvolver o auto conhecimento e a percepção que a felicidade mesmo diante dos problemas não é alienação e sim solução.

A pessoa feliz não deve se sentir culpado por estar em harmonia com o seu Òrìṣà e com as orientações do seu odù, pois só assim haverá uma total realização do destino escolhido antes do nascimento.

Bẹ̀rù (medo)

A principal barreira para a superação dos bloqueios é o medo.

O medo é o principal sintoma da presença de Elénìnì.

Elénìnì

É uma construção interna que normalmente acontece na infância deixando marcas profundas no Orí e no Ìwà, (caráter).

Quando o medo se instala ele automaticamente cria a insegurança e a insegurança gera a inibição e traumas.

Quando o indivíduo não reage de forma positiva a um trauma ou uma experiência negativa o caráter poderá ser abalado e as reações exteriorizadas dificilmente serão controladas.

Para controlar as reações de Elénìnì em primeiro lugar, deve ser desenvolvido a busca pelo auto conhecimento.

Embora exista uma outra forma de combater esse problema conhecida como a transmissão do àṣẹ.

Àṣẹ, (energia).

O àṣẹ é uma energia que pode ser transmitido de várias maneiras.

- Primeiramente como já citamos o auto conhecimento adquirido nas iniciações é a transmissão de àṣẹ mais eficiente.

- Embora o Bọrí também oferecer uma forma de tratamento diferenciada com grandes resultados.

- O ẹbọ é método mais comum e o menos eficaz nesses casos, pois, não se trata de uma construção negativa externa.

 Elénìnì

Tem como principal aliado o medo, o egoísmo e a arrogância, esses fatores paralisam e afastam o entendimento e as soluções para as dificuldades.

O medo é desenvolvido com forma de defesa em momentos de dor profunda, Elénìnì se aproveita desses traumas para enfraquecer o indivíduo abrindo a porta para os Ajogúns.

Quando os Ajogúns começam a agir Elénìnì é fortalecido criando uma série de sentimentos negativos como o egoísmo, embora muitas vezes a presença do Ajogún também auxilie na transformação positiva.

Ajogún

Infelizmente quando Ìyá mi Òṣòròngà permite a entrada dos Ajogúns na vida dos homens existem reações negativas e positivas é o que popularmente descrito como aprender pela dor.

Ikú (morte), Àrùn (doença)

São bastante conhecidos por suas forças transformadoras, o ideal seria que a transformação acontecesse através das iniciações e não com os sofrimentos.

Baseado no raciocínio descrito acima é de fácil entendimento que os Ajogúns e Elénìnì são obstáculos que podem ser superados com um conjunto de ações interligadas que contribuem para a evolução do espírito.

Sendo assim o tratamento da pessoa afetada deve ser simultâneo, deve existir a recuperação do equilíbrio e o aprimoramento do caráter.

Quem acreditar que existe uma formula mágica vai sofrer uma grande decepção.

 

Aula (03) - A Saudação dos iniciados em Ifá.


Àbọ̀rú Àbọ́yẹ́ Àbọ́ṣíṣẹ

Significado da saudação:

Àbọ̀rú Àbọ́yẹ́ Àbọ́ṣíṣẹ, é a contração das palavras:

kí ẹbọ fin, kí ẹbọ dá, kí ẹbọ o ṣe.

Que significa:

Meu sacrifício será autorizado, meu sacrifício será aceito, meu sacrifício se manifestará respectivamente.

 Em resposta a esta saudação teremos:

Agbó Atọ́, Àsúre Ìwòrì Òfún.

Agbó Atọ́ é a contração das palavras: A Ìyá gbé, A Ìyá tọ́, que significa, que você tenha prosperidade e longevidade.

Àsúre Ìwòrì Òfún, significa: que tenhamos uma vida longa, saudável e que recebamos as bênçãos do Odù Ìwòrì Òfún.

O Odù Ìwòrì Òfún, é utilizado para abençoar às pessoas

Sendo assim teremos:

Àbọ̀rú Àbọ́yẹ́ Àbọ́ṣíṣẹ (meu sacrifício será autorizado, aceito e se manifestará respectivamente) – Agbó Atọ́ Àsúre Ìwòrì Òfún (que tenhamos uma vida longa, saudável e que recebamos as bênçãos de Ìwòrì Òfún).


Bàbáláwo Brasileiro


“Um dia foi me perguntado se poderia haver um Bàbáláwo Brasileiro, e isso me fez pensar, que trauma de inferioridade nosso povo vive ao longo da história, que só o que é estrangeiro é bom.”

Ifagbaiyin Agboola

 

Se um brasileiro, que passa pelas mesmas cerimônias que um iorubano, o que o torna menos capaz diante dos olhos de Ọ̀rúnmìlà? (Nada).

O ritual conhecido como Ìtẹ̀fá, qualifica a pessoa para ser um sacerdote e dar início a uma jornada de aprendizado e qualificação sacerdotal para o resto da vida, no qual, dependendo dos esforços, dedicação e estudos o recém iniciado poderá levar mais ou menos tempo para sua formação como Bàbáláwo.

Antigamente dizia-se que o iniciado em Ifá, deveria estudar no mínimo 15 anos para se tornar um Bàbáláwo. Hoje, com tantos mecanismos disponíveis que auxiliam para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem, os sacerdotes conseguem reduzir bastante esse tempo de aprendizado.

Todo o iniciado que se submete as devidas cerimônias de iniciação deve obrigatoriamente ser reconhecido pelo título que recebeu. Se ele vai ser um sacerdote qualificado ou não irá depender muito dos seus próprios esforços, assim como, em qualquer outra profissão. É importante ressaltar que o fato do iniciado passar por certos rituais, não o habilita a realizar os mesmos, mas, o torna reconhecido como o tal.

Dizer que todo brasileiro não pode ser um Bàbáláwo, é no mínimo imprudência, porque Ifá, ensina que generalizar não é inteligente. Devemos estar abertos ao diálogo e as mudanças, pois, até a natureza está em constante transformação. Uma das missões que Ifá, deu aos Bàbáláwos, é que ele ande pelo mundo e inicie novos sacerdotes.

  

Aula (04) - A Honestidade, O Sacerdócio e a Verdade

“A honestidade é uma qualidade de ser verdadeiro, não mentir, não fraudar, não enganar e deveria ser a principal característica de um sacerdote. Quando uma pessoa procura uma casa de religião para consultar é isso que ela espera, mas muitas vezes termina pagando para ouvir mentiras e ser iludida conforme o interesse de quem está manipulando o oráculo.”

Ifagbaiyin Agboola

É difícil de acreditar que existem pessoas que utilizam o nome do Òrìṣà, para benefício próprio. Em nome dos Òrìṣàs, atos são proferidos e verbas são liberadas, documentos são assinados, acordos ignorados, diante tudo isso, pessoas são iludidas.

O indivíduo que é honesto procura agir dentro de uma lógica que implica em manter uma postura digna e coerente com a prática religiosa que professa. A obediência incondicional às regras existentes dentro e fora da religião, faz de um sacerdote um exemplo de comportamento, um elemento em permanente destaque.

Exercer o sacerdócio com honestidade em caráter amplo é muito difícil, mas, é o mínimo que o Òrìṣà espera do sacerdote. Não existe um procedimento onde possa burlar a verdade e mudar a realidade, os Òrìṣàs jamais mentem, poderá acontecer até uma má interpretação do sacerdote, porém, nunca um erro do Òrìṣà, o Òrìṣà não erra, o Òrìṣà não mente.

Para muitas pessoas ser honesto é aquele indivíduo que não mente, não furta, não rouba, que respeita os outros, enfim, mas, isso não é suficiente, você deve ser uma pessoa confiável e fazer tudo que os Òrìṣàs indicam, sem criar artifícios para benefício próprio. Para ser um sacerdote você precisa ser verdadeiro, precisa acreditar e praticar tudo aquilo que você intermedia entre o Òrìṣà e a pessoa, caso contrário nada fará sentido.

Todo ser merece ser respeitado, todos nós temos um Orí e Òrìṣàs, sendo assim, não minta em nome dos Òrìṣàs, pois, você estará ofendendo seus próprios antepassados. Faça somente aquilo que você está habilitado a fazer, não invente, não minta e não crie.

Isso é o mínimo necessário para você se dizer um sacerdote, é o que as pessoas esperam de você quando lhe procuram para uma consulta, honre a sua religião, honre seu Òrìṣà, seja digno de seus antepassados, pois, aquele que fala em nome dos Òrìṣàs, tem a obrigação de dizer sempre a verdade.

 

Aula (05) - A Descoberta do Òrìsà

“No nosso privilegiado Brasil, com sua natureza exuberante e um povo acolhedor, somos capazes de receber pessoas de vários países e com práticas religiosas diferentes, sendo assim, é muito comum, pessoas mudarem de religião depois de adultas, começarem a praticar outra crença por curiosidade ou até mesmo influenciado por alguns amigos ou familiares...

Ifakemi Agboola

 O primeiro contato com a religião dos Òrìṣàs é tudo muito bonito. E é nesse exato momento que os maiores erros poderão ser cometidos.

A religião afro brasileira é belíssima com suas cores, seus sabores e com seus ritmos, a pessoa se encanta com o conjunto, mas muitas vezes, desconhece alguns aspectos importantes, como por exemplo, uma consulta de búzios que implica um ẹbọ.

Feito o jogo de búzios, começa ali sua caminhada de descobertas dentro da religião, que na maioria das vezes, o que era para te levar ao encontro com o sagrado harmoniosamente acaba em um total desencontro e desarmonia, pois, isso irá depender muito da seriedade e do conhecimento do sacerdote ao qual você confiou.

Eu levanto aqui a seguinte pergunta: Quantos de vocês, na primeira vez, que foram consultar o oráculo, lhes disseram que o Òrìṣà deveria ser feito e você iniciado? Causando assim, a impressão de que você deveria ser feito para determinado Òrìṣà, após, a primeira consulta.

Sendo assim, a sua busca pela descoberta da religião, aquela na qual você acredita ser capaz de suprir todos os seus vazios dentro de seu interior, acaba se tornando um mundo de magias, com um Òrìṣà já estabelecido na sua cabeça, revelado em minutos, como um passe de mágica.

Logo em seguida, através da primeira consulta, a pessoa sai em busca de tudo sobre o Òrìṣà que lhe foi atribuído. Paralelamente, a pessoa começa um processo de transformação para receber (incorporar) o seu Òrìṣà. Sendo que não houve tempo para compreender nem mesmo o significado do próprio Òrìṣà.

Ao longo do tempo, alguns problemas vão se intensificando e tornando ainda maiores e o que antes era para ser uma solução passa a ser um verdadeiro embaraço. E não para por aí, o fato de a pessoa ter se vinculado a uma religião que muito das vezes desconhece, juntamente com sacerdotes despreparados, potencializam ainda mais o problema que já se encontra instalado.

Vários fatores podem contribuir para essa sequência de falhas, mas, os mais comuns são: a pressa e a desinformação, tanto por parte da pessoa que busca uma consulta, quanto a falta de preparo do sacerdote. É importante ressaltar que todos esses problemas podem ser evitados por um sacerdote bem qualificado e com o real conhecimento sobre a religião, evitando assim, o sofrimento e a desilusão.

 

Aula (06) - O Despreparo e o Perigo

 

A preparação de um Bàbáláwo, é demorada além de exigir muito estudo e dedicação, o awo (iniciado), que deseja atender com Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá ou Ikin Ifá, deve estar muito bem preparado, pois, veremos alguns perigos e danos causados pela falta de preparo. Um exemplo é alguns odùs que são bastante conhecidos para a prosperidade que estão sendo utilizados indistintamente, como o caso do odù Ìrẹtẹ̀ Alàjé, que é um odu bastante conhecido por facilitar o ganho financeiro, porém, deixa de ser citado, como um odù de risco de morte...

Ifagbaiyin Agboola

O odù Òtúrúpọ̀n Ìwòrì, é um odù que requer um tratamento especial, pois, ele inviabiliza naquele momento o uso do Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá, já o odù Òfún Ọ̀sá, indica que o consulente não tem saída, a não ser uma iniciação imediata. O odù Ọ̀yẹ̀kú Ọ̀ṣẹ́, assim como, Ìrẹtẹ̀ Ọ̀yẹ̀kú, alerta que a morte está próxima. Assim como esses odùs, existem vários outros, que requer muita atenção e conhecimento por parte do sacerdote. Pois, um Bàbáláwo com uma má formação, poderá levar a ruina a sua própria vida, assim como, das pessoas que o seguem.

Como forma de esclarecimentos, citarei aqui alguns princípios básicos que norteiam a nossa religião Ifá. São eles:

1 – Olúwo, Bàbáláwo e Ìyánífá, não incorporam.

2 – Olúwo, Bàbáláwo e Ìyánífá, consultam Ifá, através de um oráculo chamado Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá.

3 – Ifá não responde no Ẹ̀rindílógún, ou seja, jogo de búzios, quem responde no jogo de búzios é o Òrìṣà Ọ̀ṣun.

4 – Nenhum sacerdote poderá iniciar outra pessoa em um Òrìṣà que ele não seja iniciado, salvo em uma única exceção, quando o sacerdote possui Ìyá Òdù.

5 – Se a pessoa iniciada não possuir o Òrìṣà Èṣù e Ọ̀ṣun, é impossível que atenda com jogo de búzios (Ẹ̀rindílógún).

6 – Se a pessoa iniciada não possuir o Òrìṣà Ògún, é impossível que se utilize a faca.

7 – Um Bàbáláwo, só se torna Olúwo, depois de um longo treinamento e ter assentado Ọ̀pá Osú e Ìyá Òdù.

8 – Um Bàbáláwo, em processo de aprendizagem poderá utilizar o Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá somente para suas questões pessoais.

9 – O pano da costa das mulheres iniciadas é usado no ombro esquerdo.

10 – O conhecido pano de cabeça, como o próprio nome diz, é utilizado para cobrir a cabeça e jamais deverá deixar os cabelos à mostra.

11 – Um Ọ̀jẹ̀ iniciado poderá iniciar outro Ọ̀jẹ̀, somente depois de vestir o principal Egúngún de sua casa.

12 – Um iniciado em Ìyá Mi, poderá iniciar outra pessoa, somente depois de cumprir todos os ìmulẹ̀s.

E para finalizar nossa pequena lista de esclarecimentos quero deixar claro quê:

Somente os iniciados em Ifá podem usar o Idẹ e Ìlẹ̀kẹ̀ Ifá, ou seja, a pulseira e o colar de Ifá.

 

Aula (07) - O universo empresarial e os Òrìsàs


“Hoje conversando com alguns iniciados em uma tentativa de descrever a visão da Religião Tradicional Yorùbá sobre o universo, usei o exemplo de uma empresa para uma didática bastante simples: abordar a influência dos Òrìṣàs em nosso dia a dia.”

Ifagbaiyin Agboola

Se o universo fosse uma empresa:

Olódùmarè seria o presidente, Ọ̀rúnmìlà, o diretor administrativo, Ìyá mi, a diretora executiva, os Òrìṣàs, seriam os fornecedores de matéria prima, e por fim, nós seres humanos, seríamos os representantes dos fornecedores de matéria prima, ou seja, representantes dos Òrìṣàs, onde, a nossa função é mantermos a empresa em perfeito funcionamento.

Ìyá mi, por sua vez, tem a função de delegar funções para seus chefes de departamentos, que conhecemos pelo nome de Ajogún, na qual ela ordena a execução do positivo e também o negativo. Ìyá mi, por ter esse cargo, assim como Ọ̀rúnmìlà, possuem uma relação bastante estreita com Olódùmarè, pois, é uma função, onde, exige uma confiança incondicional, e assim, deve ser a relação entre Ọ̀rúnmìlà, Ìyá mi, e Olódùmarè.

Com um organograma já pré-estabelecido o fornecimento de matéria prima deve ser constante, pois, na falta da mesma, a função dos diretores deixa de existir. Se a matéria prima for enviada para um departamento que não deveria, à produção será dificultada e o produto final adulterado. Agora, se a matéria prima for devidamente enviada ao departamento responsável, a produção será facilitada, além da autenticidade e excelente qualidade do produto final.

Podemos concluir quê:

Não existe Òrìṣà errado. Independente do Òrìṣà feito. Porém, somente o Òrìṣà, que facilita a produção, como citado anteriormente, nos proporcionará melhores resultados.

Seguindo o raciocínio, temos Orí (cabeça), como chefe de controle de qualidade, onde, possui vários departamentos, sendo um deles, Ìwà (caráter), que influencia diretamente em seu desempenho. Dependendo do caráter o desempenho de toda a produção da empresa poderá ser alterado.

Quando o departamento de controle de qualidade (orí), comete erros influenciados pelo chefe de setor ìwà (caráter), toda a empresa continua sua produção, porém, algumas peças produzidas serão de baixa qualidade gerando, assim, problemas futuros, comprometimentos e prejuízos.

Em um período de crise essas falhas se tornarão mais claras necessitando, assim, da requalificação do chefe de controle de qualidade (Orí), já que é impossível a sua substituição.

Egúngún, tem uma função importantíssima, ele representaria o departamento do meio ambiente, que fiscaliza a reintegração dos dejetos da produção e encaminha os restos de matéria prima usada reciclando-as e introduzindo-as novamente no local apropriado para um futuro reaproveitamento. Entenda-se: ciclo de vida e morte.

E você deve estar se perguntando e Èṣù? Como seria descrito nessa visão?

Èṣù exerce a mesma função que os outros Òrìṣàs, podemos compará-lo com um executivo que transita em vários seguimentos por conta da sua intimidade com o presidente.

Ele é o sujeito que substitui vários dos chefes de setores no período de férias, como um gerente em treinamento. Ele entra na sala da presidência como aqueles filhos do patrão que tem intimidade com o presidente, está ali a trabalho, porém, usa da prerrogativa de ser intimo em todos os setores.

 

Aula (08) - Iniciação em Ifá sem mistérios


“Quando se ouve falar de um Ìtẹ̀fá, algumas pessoas acreditam ser algo impossível de ser realizado no Brasil.”

Ifagbaiyin Agboola

Para que o rito de Ìtẹ̀fá, seja realizado, é necessário mais de um Bàbáláwo, na Nigéria, é comum nós vermos vários Bàbáláwos, participando de um Ìtẹ̀fá, respeitando as diferenças familiares, ritualísticas e convivendo em harmonia. Conforme segue a orientação de Ọ̀rúnmìlà Ifá. Poderemos perceber o porquê, da necessidade da participação de várias pessoas para a realização de um Ìtẹ̀fá.

No Brasil, uma tradução do ponto de vista dos leigos e mal interpretada a referência ao Igbódù (floresta sagrada), fez muitos indivíduos acreditarem na necessidade de iniciar a pessoa em Ifá no meio das matas, porém, ninguém fica no meio do mato abandonado por três dias e três noites e muito menos em um local que não foi devidamente preparado para aquela finalidade.

O Ìtẹ̀fá poderá ser realizado de duas maneiras, a primeira é onde o Igbódù é construído somente com folhas e a segunda é um cômodo separado exclusivamente para essa finalidade, onde, ambas abrigam o Òrìṣà Ìyá Òdù. O fato de que as mulheres não podem ter acesso a esse assentamento, na Nigéria, é comum que Ìyá Òdù, seja mantida em uma pequena construção de alvenaria ou de madeira.

Após a autorização através da consulta a Ifá, o sacerdote identifica o início da cerimônia após a chegada da pessoa que será iniciada, com todos os materiais que foram previamente comprados de acordo com a orientação do Bàbáláwo, dá-se então início a cerimônia, que dependendo da família gira em torno de 50 rituais diferentes.

Um ou dois Bàbáláwos, são encarregados de preparar o Igbódù, onde, um deles após a preparação do local, alimenta a terra e pede permissão para construir o caminho que conduzirá até o ambiente sagrado, onde, será depositado na terra búzios juntamente com mais dois ou três elementos, em número par de um lado e ímpar do outro, do caminho que acabara de ser construído que dará acesso ao local previamente preparado.

O grupo que irá participar da iniciação se divide em tarefas, enquanto a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí cuida dos pertences do iniciado, a Ìyánífá, prepara o carrego para a entrada no Igbódù, paralelamente, o Olúwo e o Bàbáláwo, amarram simultaneamente em um dos braços e uma das pernas um pedaço de tecido virgem branco que contém uma parte do dinheiro que representa o pagamento para o início dos rituais.

Começa então um cortejo que se desenvolve em direção ao Igbódù, com o Olúwo, na frente conduzindo o Ọ̀pá Osú (antepassado), que representa o reconhecimento dos antepassados para o ritual que se inicia, seguido pelo Bàbáláwo e a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, com o yangí de Èṣù, sobre a cabeça, esse ritual que apresenta o iniciado aos antepassados dos familiares retrata o esforço que ele faz para agradar as divindades, em um carrego bastante amplo, amostras de cada um dos elementos a serem usados na iniciação, são conduzidas sobre a cabeça do iniciado, acompanhados dos membros da Ẹgbẹ́ Ifá, amparado pela Ìyánífá, que agrada com dendê e gim, algumas divindades durante o cortejo.

Na entrada do Igbódù, o iniciado vai estar vendado, pois, até que sejam formalizados os rituais para que ele entre na parte que antecede o Igbódù, muitas coisas acontecem, ele é envolvido em um clima de expectativa, sentado segurando os animais e o material, enquanto o Olúwo e o Bàbáláwo, oferecem obì e orógbó para Èṣù Ọ̀dàrà e Ọ̀rúnmìlà. Após a autorização a venda é retirada, todo o material é colocado dentro do Igbódù, e se inicia a raspagem do iniciado.

Os rituais prosseguem simultaneamente, os mesmos Bàbáláwos, que prepararam Ọ̀pá Osú (antepassados), previamente para a cerimônia, reservam uma parte das folhas que será utilizada junto com outros elementos específicos para lavar os olhos das pessoas que irão começar os rituais dentro do Igbódù.

O primeiro grupo trabalha na preparação da parte interna do Igbódù, e o segundo grupo prepara o iniciado, um terceiro grupo auxiliam no serviço externo, ou seja, fora do Igbódù, pois, existem rituais que jamais podem ser mencionados ou até mesmo vistos por quem não possui certas autorizações.

Podemos observar através do número de cerimônias a quantidade de trabalho, tanto o trabalho da parte religiosa quanto da parte de hospedagem da pessoa que está sendo iniciada e do grupo que compõe a Ẹgbẹ́ Ifá. O que implica muito serviço nos bastidores e gastos financeiros.

Já com alguns ìmulẹ̀s feitos, após a entrada no Igbódù, o Olúwo e o Bàbáláwo, agradam Ifá, Ìyá Òdù, Ọ̀pá Osú (antepassados) e Èṣù, não necessariamente nessa ordem. O iniciado que antes da entrada passou por uma consulta a Ifá, e por um ẹbọ rírù, agora com a cabeça raspada, vai conhecer o seu odù, que logo em seguida será alimentado e antes que o iniciado veja seu Ifá, da terra brotará o segredo.

Depois disso alguns rituais envolvendo banhos, pinturas e a preparação da nova roupa do awo, devem ser feitos de forma reservada, por pessoas do mesmo sexo, considerando o fato de que para colocar uma roupa é necessário tirar outra que vai ser despachada junto com o cabelo em um local que não vamos definir aqui, posteriormente, o Èṣù do iniciado será alimentado, em alinhamento com o odù Ifá, do awo.

Após essa parte, todos os participantes fazem um intervalo onde se alimentam e planejam a segunda etapa, onde, o Èṣù, da casa é alimentado e abençoa o caminho do novo iniciado como membro da Ẹgbẹ́.

A ordem exposta aqui não deixa nítido o teor e a sequência dos rituais, o grupo desenvolve várias atribuições ao mesmo tempo. Em um dado momento o Ifá, do iniciado sai do Igbódù, para ser alimentado do lado de fora, pois, o awo deverá presenciar esses rituais e nem sempre quem participa de um Ìtẹ̀fá, poderá em um futuro ter acesso a um Igbódù.

Após esses pequenos rituais, porém, de grande importância, confirmam o awo, como membro da Ẹgbẹ́, ele que fez vários ìmulẹ̀s e compactuou com o segredo e assumiu a responsabilidade com a verdade é parabenizado por todos, agora regido por Ọ̀rúnmìlà, em um momento único, abençoa todos os membros que participaram do seu Ìtẹ̀fá.

Em algumas famílias esses rituais são divididos em três partes, que podem ser feitas em três ou sete dias, a maioria faz em três dias, quando o awo vai ao rio em outros rituais que não podemos relatar aqui, onde, ele se desfaz de sua vida passada, passando a ser portador de um novo nome, no qual o identificará com uma nova vida.

Essa aula visa contribuir para o esclarecimento visando afastar definitivamente as histórias mirabolantes do que é ser iniciado em Ifá. Sendo assim que fique claro:

Somente um Bàbáláwo passa por um Ìtẹ̀lodù

Aquele que vê Ìyá Òdù, não incorpora

Um Bàbáláwo não consulta Ẹ̀rindílógún, consulta Ọ̀pẹ̀lẹ̀ e Ikin Ifá

Somente um Bàbáláwo faz ìmulẹ̀ com Ìyá Òdù

Awo Ẹlẹ́gan, é a pessoa que é submetida ao Ìtẹ̀fá, porém, jamais verá Ìyá Òdù

Somente um Bàbáláwo vê Ìyá Òdù 

A área que antecede o local onde fica Ìyá Òdù, que geralmente também chamada de Igbódù, é acessada somente por pessoas que possuem a cerimônia de Ìtẹ̀fá ou Ìyánífá.  A designação de Igbódù, é muito diferente da descrita em literaturas criadas por pessoas que não foram submetidas ao Ìtẹ̀lodù.

 

Aula (09) - Iniciação em Ifá e suas vantagens, quem deve ser iniciado


“Durante o período que estive na Nigéria, um fato em especial me chamou a atenção, o número de pessoas pertencentes a outras religiões que são iniciadas em Ifá é muito grande.”

Ifagbaiyin Agboola

Qual o benefício de ser iniciado em Ifá?

A probabilidade de você se perder ou traçar um caminho errado ao sair para uma viagem sem ter o conhecimento da estrada ou até mesmo um mapa para te guiar é muito alta. O fato de você receber um mapa da estrada através do processo de iniciação irá certamente facilitar bastante o seu deslocamento. Em qualquer momento da vida a pessoa poderá ser iniciada em Ifá, independente de sua religião, pois, ela terá vários benefícios sendo um dos mais importantes a descoberta do autoconhecimento.

É importante ressaltar que quando você é iniciado por um Bàbáláwo, em Ifá, você não perde a ligação com o seu Bàbálórìṣà, caso você pertença a outras vertentes, o culto de Òrìṣà e Ifá poderá acontecer paralelamente. Durante a iniciação a pessoa receberá várias informações sobre o seu destino o que tornará o caminho a ser seguido mais claro. Respeitando èèwọ̀ (proibições), de seu Odù Ifá, e as normas de conduta no seu cotidiano espiritual e material, para a sua total harmonia entre o profano e o sagrado.

Na verdade, cada pessoa tem um destino e naquele momento a orientação de Ifá, não segue uma regra ou receita milagrosa, para cada pessoa os rituais podem exigir uma sequência completamente diferente da outra, onde, o objetivo final é alinhar a pessoa com o seu destino, transmitir para ela a Orientação de Ọ̀rúnmìlà Ifá, trazendo a luz na vida do iniciado.

Geralmente em território Yorùbá, as pessoas se iniciam em Ifá, para que em um segundo momento se iniciem em Òrìṣà. O fato da pessoa se iniciar em um Òrìṣà, não apontado pelo seu odù, causará um desalinhamento que somado ao distanciamento dos Òrìṣàs, que realmente deveriam ser cultuados, poderá causar várias complicações como perdas, baixa da autoestima, assim como da imunidade causando vários problemas de saúde, prejuízos financeiros, afetivos, emocionais, problemas de ordem mental e até mesmo a morte. Isso implica em um comportamento, onde, a pessoa poderá estar sendo totalmente indiferente aos Òrìṣàs, que fazem parte do seu destino.

Sair de viagem sem conhecer a estrada, sem ter um mapa é uma grande temeridade, ser iniciado em Ifá, torna a sua vida muito mais segura, onde, se reduz bastante o percentual de erros que associado de forma correta com o seu Òrìṣà, as chances de você cumprir o seu destino com êxito na Terra, aumentam consideravelmente.

O fato de você descobrir que foi iniciado para um Òrìṣà, não mencionado pelo o seu odù, não é motivo para entrar em desespero, pois, você terá mais informações sobre o seu verdadeiro Òrìṣà, possibilitando assim, uma dedicação paralela ao Òrìṣà, anteriormente cultuado e o Òrìṣà, indicado por Ifá, em um nível de igualdade, corrigindo assim, o desvio cometido, em que na maioria dos casos a pessoa desconhece. 

Em um ritual teoricamente simples, com o assentamento do seu Ifá, você poderá mudar a sua história. Em um Igbá com número mínimo de dezoito Ikins, pode estar a resposta as perguntas de toda a sua vida.


Aula (10) - Ifá e a Hierarquia

 

Muito se fala sobre a hierarquia no culto de Òrìṣà no Brasil, contribuindo assim para o enriquecimento das informações sobre a religião afro-brasileira. Devido à escassez de informações de fontes seguras em nosso país, divulgaremos aqui, as orientações por nós recebidas em território Yorùbá, sobre a hierarquia no culto a Ifá. Esperamos através dessa aula estar contribuindo e enobrecendo as referências sobre esse tema abordado aqui no Brasil. É importante observarmos que a hierarquia poderá sofrer alterações devido a regiões e grupos familiares, porém, o processo é muito semelhante.

Àràbà: o título de Àràbà é o mais importante dentro do culto a Ifá, normalmente em terras Yorùbás um Àràbà é escolhido com base em três critérios, que são eles: conhecimento inquestionável, conduta ilibada e apoio unânime. O Àràbà representa o grupo de Bàbáláwos de uma cidade ou de um país, o que nos leva à seguinte conclusão: as cidades com maior população de Bàbáláwos, tem um critério de escolha mais exigente do que as cidades de pequenas populações. Em uma cidade grande para que um Bàbáláwo, se torne Àràbà, ele será questionado por um grupo maior de sacerdotes. Esses questionamentos podem durar dias e somente quando todos os Bàbáláwos estiverem satisfeitos com as respostas, a data da cerimônia será marcada. Vale ressaltar que em uma cidade muito pequena com um grupo de Bàbáláwos reduzidos, a escolha de um Àràbà poderá ser imediata desde que exista o apoio do grupo.

Como forma afetuosa de intitular o Bàbáláwo mais velho em um Ilé Ifá, carinhosamente o sacerdote mais velho, dentro dessa família poderá ser chamado de Àràbà, é importante não confundir esse título familiar restrito há casa da família, com o Àràbà de uma cidade ou de um país.

Akọ́dá: Bàbáláwo Àgbàlágbà, preparado para substituir o Àràbà, em caso de morte ocupa imediatamente o cargo do Àràbà, mantendo os rituais mesmo no período de luto.

Aṣẹ̀dá: Bàbáláwo Àgbàlágbà, o terceiro na hierarquia, preparado para substituir o Akọ́dá.

Agbongbon: Bàbáláwo, especialista em Oríkì, considerado a memória da família, capaz de recitar o conhecimento contido nos versos de ifá, durante dias e noites.

Erìnmì: Bàbáláwo, com conhecimento inquestionável sobre os rituais secretos no Ilé Ifá.

Agiri: Bàbáláwo, experiente com profundo conhecimento sobre odù.

Awiṣe: Bàbáláwo, bastante experiente que fala em nome da família autorizado pelo seu Olúwo ou Àràbà.

Alakeji: Bàbáláwo, muito experiente que substitui o Olúwo, dentro do Ilé Ifá, em todas as situações com exceção das iniciações.

Alara: Bàbáláwo, experiente, especialista na relação com os iniciados e iniciações em geral.

Okunmeri: Bàbáláwo, especialista nas cerimônias internas.

Agunsin: Bàbáláwo, experiente que acompanha os rituais ou festejos externos, responsável pelo deslocamento dos membros da Ẹgbẹ́ Ifá.

Aranisan: Bàbáláwo, experiente que orienta a cerimonia diante de Osú, no ritual de Ìtẹ̀fá.

Amukinro: Bàbáláwo, experiente que orienta os iniciados dentro do Ilé Ifá, em cerimônias que é consultado Ikin.

Kawolehin: Bàbáláwo, experiente que orienta os iniciados em rituais e festejos internos e externos.

Olúwo: existem dois títulos diferentes descritos pela palavra Olúwo, um dentro de Ifá, e outro dentro da sociedade Ògbóni, imediatamente superior ao título de Apènà na hierarquia. Nessa abordagem iremos analisar o título restrito ao culto de Ọ̀rúnmìlà Ifá. O Olúwo, é um Bàbáláwo que tem autorização para iniciar outro Bàbáláwo, não devemos confundir com Olòdù, ou seja, Bàbáláwo, que possui o assentamento de Ìyá Òdù, o fato isolado de possuir Ìyá Òdù, não o torna um Olúwo. O Olúwo, é o sacerdote que tem a responsabilidade sobre as cerimonias de Ìtẹ̀fá e Ìtẹ̀lodù, sendo assim, consultar Ifá, com Ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou Ikin, submeter-se a ẹbọ ou ètùtù, participar de iniciações ou festejos referentes ao culto de Ọ̀rúnmìlà  e Òrìṣàs, fazer iniciações e consultas é necessário a autorização prévia de seu Olúwo.

Ojúgbọ̀nà: é o Bàbáláwo, que participou da iniciação que tem a função de treinar, mas, não o poder de autorizar o novo awo para que faça iniciações ou consultas.

Balógun: título muito importante, onde, o Bàbáláwo, escolhido para essa função deve ser muito experiente para lidar com as questões que envolvem os rituais e as relações internas e externas da família, referentes a proteção do Ilé Ifá, e seus membros.

Ṣokinloju: esse título deve ser dado a um Bàbáláwo, antigo dentro da Ẹgbẹ́, é uma espécie de observador com autoridade para corrigir erros e procedimentos no dia a dia do Ilé Ifá.

Akogun: esse título só poderá ser dado para um Bàbáláwo, experiente, normalmente o akogun, auxilia ou substitui o balógun.

Surepawo: esse título poderá ser ocupado por um Bàbáláwo, jovem. O surepawo, é encarregado de pagamentos, compras e afazeres fora do Ilé Ifá.

Asawo: Bàbáláwo, jovem ou awo kékeré, que auxilia o surepawo.

Ìyánífá: Toda mulher submetida ao Ìtẹ̀fá é uma Ìyánífá, esse termo também pode ser utilizado para a sacerdotisa de Ifá.

Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí: na Religião Tradicional Yorùbá é a esposa do Bàbáláwo. Normalmente, a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, devem ser iniciadas em Ọ̀ṣun.

Ìyánífá e Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí: no caso da mulher que é Ìyánífá e Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, esposa do Olúwo, da Ẹgbẹ́ Ifá, as exigências são maiores em razão da alteração na hierarquia, considerando que o título é superior aos demais remetendo imediatamente a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí e Ìyánífá, ao segundo cargo dentro da Ẹgbẹ́ Ifá.

Ìyálode Awo: Ìyánífá, líder das mulheres na Ẹgbẹ́ Ifá.

Ajigbeda Awo: Ìyánífá, experiente que auxilia a Ìyálode.

 

Aula (11) - Qualidade de Òrìsà não Existe, Ifá?


“Quando os Òrìṣàs, chegaram ao Brasil, vieram pelas mãos de escravos oriundos de várias partes do território Yorùbá. Evidentemente, isso gerou alguns problemas, no qual podemos citar: a diferença de nomes atribuídos ao mesmo Òrìṣà...”

Ifagbaiyin Agboola

É importante compreendermos que em cada região do território Yorùbá, o mesmo Òrìṣà, recebe nomes diferentes. Podemos observar que alguns escritores definem esses nomes atribuídos como títulos recebidos em derminados momentos, seja de uma louvação ou exaltação. Ọ̀ṣun sempre será Ọ̀ṣun, se em algum lugar ela recebe o nome de Opará, Ipondá, Ijimun, isso não cria um novo Òrìṣà. Da mesma forma, que não nos permite colocar certos elementos no Igbá de um Òrìṣà, que não tem ligação com esses elementos.

Os nomes atribuídos aos Òrìṣàs não mudam seu comportamento, pois, se trata de questões relativas à região no qual ele é cultuado. Para um melhor entendimento podemos citar como exemplo as folhas, hortaliças e tubérculos utilizados para os rituais encontrados em algumas localidades e em outras não, identificados com vários nomes diferentes nas mais variadas regiões, porém, em nada muda a essência. Com um nome, Ọ̀ṣun é uma figura feminina e de grande vaidade, se em outra região ela é reverenciada com um outro nome e associada a figura de uma mulher guerreira, isso não cria uma nova Ọ̀ṣun, com mais ou menos idade e muito menos com um comportamento diferente. Isso se aplica a todos os Òrìṣàs.

  

Aula (12) - Orixás Direitos e Deveres


“Em nossa casa frequentemente aparece um grupo de saguis, então vou colocar bananas para eles, quando me ocorreu de escrever esse texto sobre a Fé, os Òrìṣàs, os Direitos e os Deveres dos iniciados e sacerdotes...”

Ifagbaiyin Agboola

Quando falamos de fé, nós não podemos ver o Òrìṣà e nem sabermos ao certo que dia que ele irá atuar em nossa vida, porém, você reza todos os dias, cuida de seu Òrìṣà, com amor e carinho, partindo do princípio que ele também está cuidando de você. Muitas vezes aos nossos olhos ele demora para interferir e nos auxiliar em nossas dificuldades do dia a dia, mas, na verdade o Òrìṣà, é que sabe a hora certa de interceder por nós. O Òrìṣà, interfere em nossas vidas constantemente, nós, que não temos a sensibilidade de perceber o que está acontecendo em nossa volta, por sermos seres imperfeitos, onde, estamos mais preocupados com as nossas dívidas, com as nossas aparências, a beleza da casa, da roupa, do carro, do que vamos adquirir e que na maioria das vezes não percebemos as mudanças do mundo espiritual. Baseando-se nesse contexto elucidaremos alguns aspectos importantes que norteiam a vida do iniciado e do sacerdote dentro da casa de Òrìṣà.

Ao entrar na casa de Òrìṣà, é dever do iniciado cumprimentar primeiramente os Òrìṣàs, para depois saudar o sacerdote e os membros da família.

É direito dos iniciados, entrar nos quartos dos Òrìṣàs, para saudá-los e fazer suas orações. É dever do sacerdote permitir a entrada, saudar e respeitar o Òrìṣà do iniciado, caso ele incorpore.

O procedimento correto é recolher o Òrìṣà, para dentro de um dos quartos colocar uma roupa adequada, retirar os calçados e levar o Òrìṣà, para saudar o ojúbọ do Òrìṣà, dono da casa, para depois saudar o sacerdote.

Na casa de Òrìṣà, é dever do iniciado auxiliar nas atividades, assim como na limpeza, manutenção e conservação de todas as instalações.

É um direito do iniciado, em caso extremo, ser atendido em consulta mesmo que não disponha naquele momento de dinheiro.

É dever do iniciado, auxiliar na compra de materiais para a manutenção da casa.

É dever do sacerdote, auxiliar os iniciados que não disponham de materiais para a manutenção dos Igbá de seus Òrìṣàs

É direito dos iniciados, fazerem as refeições na casa de Òrìṣà, durante o período que eles estejam em rituais e cerimônias.

Demonstra boa educação, o iniciado que sirva seu alimento durante as refeições, após o sacerdote ter se servido

É dever dos iniciados, informar, caso decidam participar de alguma cerimônia religiosa em outra casa, sendo assim, é um dever do sacerdote orientar seus iniciados de como devem se comportar em visitas a outras Casas de Òrìṣàs.

É um dever do sacerdote, transmitir ensinamentos e interferir quando necessário em benefício do seu iniciado.

É um dever do iniciado, respeitar e honrar a sua família e a casa na qual ele foi iniciado.

Assim sendo, podemos observar, que o sacerdote não é o dono da casa de Òrìṣà, e sim o próprio Òrìṣà, por isso sempre será cumprimentado primeiro. Quando o iniciado entra no terreno do Ilé Òrìṣà, deverá primeiramente se dirigir ao Èṣù, da casa e pedir permissão para adentrar, posteriormente, se necessário for deverá se trocar com uma roupa adequada e cumprimentar o Òrìṣà, dono da casa, logo em seguida o sacerdote principal, para que finalmente cumprimente os demais membros da Ẹgbẹ́, seguindo a hierarquia. O cumprimento ao sacerdote que iniciou o iniciado deverá ser feito com o ato de colocar a cabeça no chão (foríbalẹ̀), já para os demais essa reverência poderá ser ou não substituída por uma saudação.

As mulheres iniciadas deverão se vestirem de acordo com as cerimônias usando saia, pano da costa e pano de cabeça. É dever dos iniciados se vestirem de forma adequada ao ambiente da casa de Òrìṣà, sendo proibido o uso de bermudas, shorts e roupas cavadas. É dever dos homens iniciados auxiliar as mulheres iniciadas nos trabalhos que exijam uma maior força física e também não é nenhum demérito auxiliar em atividades teoricamente femininas. No período de iniciações pressupondo que o novo iniciado não disponha de condições financeiras para as compras referentes a sua iniciação é dever dos iniciados mais antigos e do sacerdote contribuírem com trabalho e dinheiro facilitando assim a situação do necessitado.

Em caso de visita de membros de outras famílias é dever do sacerdote abrir os quartos dos Òrìṣàs, para que sejam saudados e junto dos iniciados receber os visitantes com o máximo de respeito. Para melhor compreensão a partir de agora definiremos aqui assentamento coletivo como Ojúbọ e assentamento particular como Igbá. É dever de todos os iniciados participar do Ọ̀sẹ̀ dos ojúbọs da casa de Òrìṣà, assim como, é um direito do iniciado desfrutar de silêncio durante o Ọ̀sẹ̀ em seus Igbás para que possa fazer suas orações. Ọ̀sẹ̀ (semana), é o dia em que completa uma semana Yorùbá, período referente de quatro em quatro dias, Ọ̀sẹ̀, o primeiro dia da nova semana que se inicia, para maior compreensão é o quinto dia após o primeiro Ọ̀sẹ̀.  O Ọ̀sẹ̀ dos ojúbọs deverá ser feito pelos iniciados que já tenham permissão do sacerdote para esse ritual, é impossível que o sacerdote mantenha todos os Òrìṣàs, da casa limpos e tratados sozinho, a participação de todos os membros é fundamental para que se estabeleça o conceito de família.

Com exceção do seu Òrìṣà, principal, quase todos os assentamentos devem ser tratados como ojúbọ, salvo Ọ̀rúnmìlà, o Èṣù pessoal, Ìyá mi e Egúngún, Òrìṣàs esses individuais, no caso igbá Òrìṣà. É importante ressaltarmos que não podemos confundir com assentamento coletivo de Egúngún, Ìgbàlẹ̀ ou Ojúbọ. 

O igbá do Òrìṣà, do iniciado é de propriedade dele, é dever do sacerdote entregar o igbá para o iniciado que deve providenciar um local adequado para manter o assentamento. Jamais, o assentamento do Òrìṣà, deverá ser retido na casa de Òrìṣà, por falta de qualquer tipo de pagamento, os pagamentos são feitos por rituais e não por igbá, o assentamento do Òrìṣà, jamais poderá ser usado como garantia de um pagamento futuro.

É dever do iniciado antecipadamente solicitar ao sacerdote autorização para levar amigos na casa de Òrìṣà, que poderá estar em cerimônias não permitidas para visitantes. É um direito do iniciado solicitar ao sacerdote que ele ministre suas próprias cerimônias e rituais, assim como, é um dever do sacerdote corresponder à confiança depositada em suas mãos. Um exemplo que podemos utilizar para elucidar essa ideia é o ritual de Bọrí, que devem ser ministrados pelo principal sacerdote da casa de Òrìṣà, e jamais por outros membros mesmo aqueles com conhecimento comprovado.

Recomenda-se as pessoas em visita a casa de Òrìṣà, que mantenham o hábito de levar para os Òrìṣàs, agrados como, obì, orógbó, esteiras, dendê, mel, gim, frutas e flores. A manutenção da casa de Òrìṣà, é dispendiosa e deve ser considerada como responsabilidade de todos os membros. Quanto a manutenção da fé, ela não tem rituais específicos ou uma fórmula secreta, os rituais podem ser ensinados, mas, a crença ela é desenvolvida sem o controle pré-estabelecido. Acreditamos ou desenvolvemos a fé com o passar do tempo, porém, a fé jamais será instruída, os sentimentos afloram dispensando justificativas, o Òrìṣà, opera em nós o milagre de acreditar naquilo que não estamos vendo, mas, que podemos sentir. A força do Òrìṣà, transforma, tranquiliza, e fortalece o interior do iniciado sem que ele perceba, somente o tempo atesta a evolução e o desenvolvimento espiritual. Não existe a possibilidade de pular etapas, a vida se desenvolve dia após dia.

 

Aula (13) - Bàbàláwo


“No Brasil, a grande maioria da população não conhece os verdadeiros Bàbáláwos, por uma questão histórica, em nosso país praticamente não existiram sacerdotes de Ọ̀rúnmìlà...”

Ifagbaiyin Agboola

Nos últimos anos o culto a Ọ̀rúnmìlà Ifá, ficou muito popular fora da Nigéria, a necessidade de conhecer melhor a Religião Tradicional Yorùbá, impulsionou a procura por esses sacerdotes. Ọ̀rúnmìlà, é o único Òrìṣà, que conhece o nosso destino, e seus sacerdotes os Bàbáláwos, são grandes conhecedores dos odùs e da palavra de Ọ̀rúnmìlà. Os Bàbáláwos no território yorùbá, são homens muito responsáveis e respeitados por suas atitudes, em suas comunidades são considerados exemplos para todos os cidadãos.

São muitos os episódios envolvendo falsos sacerdotes de Ifá nigerianos e brasileiros em nosso país. Porém, nos últimos 30 anos, chegaram ao Brasil, alguns bons sacerdotes de Ọ̀rúnmìlà, isso inspirou inúmeros brasileiros a serem iniciados em Ifá. É interessante esse raciocínio, pois, tantos foram aqueles sem escrúpulos que prejudicaram a imagem do culto a Ọ̀rúnmìlà, que teoricamente não deveriam existir pessoas dispostas a serem iniciadas em Ifá, no entanto, bastou que poucos, porém, verdadeiros Bàbáláwos, chegassem até o nosso território para que a Religião Tradicional Yorùbá, se tornasse respeitada e o número de iniciações em Ifá, se multiplicasse.

Sendo assim, como podemos identificar um Bàbáláwo, de verdade? Um Bàbáláwo de verdade, tem um nome de verdade, usado conforme Tradição Yorubá. Na realidade, identificar um Bàbáláwo, vai muito além de observar o seu nome, um Bàbáláwo, tem uma postura digna, é portador do conhecimento, tem segurança e demonstra prazer em ser identificado como membro da sua família.

O culto a Ọ̀rúnmìlà, e os demais Òrìṣàs, é ancestral e familiar, o que facilita a identificação do Bàbáláwo. Não existe um Bàbáláwo ou uma Ìyánífá, que não use o nome de sua família, é impossível ser um sacerdote de Ọ̀rúnmìlà, sem que exista a ligação familiar. Um sacerdote de Ifá, é educado para respeitar o seu Olúwo e a sua família, se isso não acontecer, ele jamais será um Bàbáláwo ou uma Ìyánífá.

Um Bàbáláwo, tem compromisso com a verdade, com a ancestralidade, para isso ele estuda a vida toda, aprendendo a usar o conhecimento de seus antepassados e baseando o seu comportamento nas orientações de Ifá.

 

Aula (14) - Ọ̀rúnmìlà e Ifá, Dúvidas Frequentes

 

O objetivo dessa aula é que possamos contribuir para alguns esclarecimentos de dúvidas recorrentes sobre a Religião Tradicional Yorùbá, através de perguntas e respostas, sendo assim:

1 – A pessoa que faz Ìtẹ̀fá, deixa de incorporar as entidades que até então ela incorporava? Não. Somente quem faz Ìtẹ̀lodù, não incorpora mais, o Ìtẹ̀fá, é muito indicado para Bàbálórìṣàs e Ìyálórìṣàs, fortalecendo assim o elo entre sacerdote e Òrìṣà.

2 – O assentamento de Ọ̀rúnmìlà, tem Òkúta? Não. O assentamento de Ọ̀rúnmìlà, possui somente ikins de de quatro olhos ou mais.

3 – A mulher pode ser iniciada em Ifá? Sim. Existem dois tipos de iniciação para as mulheres, uma que ela se torna Ọmọ Ifá e a outra que ela se torna Ìyánífá, as duas partem da cerimônia do Ìtẹ̀fá.

4 – Um iniciado em Ifá, pode ser pintado com Wájì? Não. O iniciado é pintado com ẹfun, (elemento masculino) e osùn (elemento feminino), essa interação representa a fecundidade e a prosperidade, assim como a transcendência e a evolução espiritual.

5 – Quem faz Iṣẹ́fá, recebe nome? Sim. Quem faz Iṣẹ́fá recebe nome e é considerado um membro da família do Bàbáláwo que o iniciou, sendo caracterizado um elo de ligação que responsabiliza o sacerdote pelo pré-iniciado, considerando o Ìtẹ̀fá, como a iniciação propriamente dita.

6 – Para fazer Iṣẹ́fá, raspa a cabeça? Não. Somente no Ìtẹ̀fá, que se raspa a cabeça.

7 – Existe iniciação para Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí? Não necessariamente, a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, é a mulher do Bàbáláwo, que deverá ser submetida a um Iṣẹ́fá ou Ìtẹ̀fá, porém, isso não configura uma iniciação de Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí.

8 – Existe algum cargo acima de Bàbáláwo na Religião Tradicional Yorùbá? Não. Àràbà e Olúwo, são funções exercidas por Bàbáláwos, mas isso não quer dizer que todo Bàbáláwo poderá um dia a vir a ser um Olúwo ou um Àràbà.

9 – Existe a possibilidade que exista um Àràbà ou Olúwo que não seja Ògbóni? Não. Caso isso aconteça, esse sacerdote não terá acesso a muitas informações fundamentais para exercer o seu cargo.

10 – Um Bàbáláwo pode ter mais de uma mulher? No odù Ogbè Méjì, Ifá diz, que um Bàbáláwo deve ser um exemplo e que ele deve cumprir as leis, sendo assim, um Bàbáláwo brasileiro, que reside no Brasil, não poderá ter mais de uma mulher. No odù Ọ̀sá Ìròsùn, Ifá diz, o adultério não faz parte da vida daquele que segue Ifá.

11 – Um Bàbáláwo, poderá trabalhar em outra atividade fora da religião? Sim. Ifá diz que um Bàbáláwo, não deve comercializar as coisas de Ifá.

12 – Um Bàbáláwo pode jogar búzios? Um Bàbáláwo consulta Ifá com Ọ̀pẹ̀lẹ̀.

13 – Uma mulher pode consultar Ifá com Ọ̀pẹ̀lẹ̀? Sim. Desde que ela seja iniciada como Ìyánífá.

14 – Qual a roupa utilizada na iniciação de Ifá (Ìtẹ̀fá)? Tanto para homens quanto para mulheres existe apenas um tipo de roupa que é usada na iniciação de Ifá, que é um tecido branco que deverá envolver o corpo finalizando com um nó sobre o ombro esquerdo.

15 – Quantos dias dura uma iniciação em Ifá? De três a dezessete dias.

16 – Depois de quanto tempo, um iniciado em Ifá, submetido ao Ìtẹ̀lodù, poderá iniciar outras pessoas? Cada caso é um caso, mas, em média depois de quatro a cinco anos, esse tempo pode ser considerado a partir do momento que o iniciado é submetido a um segundo ritual após o Iṣẹ́fá, onde, ele recebe um ọ̀pẹ̀lẹ̀ para praticar.

17 – Existe algum ritual que envolve a liberação do uso do ọ̀pẹ̀lẹ̀, para consultas de clientes? É importante compreendermos que existem mais de um tipo de ọ̀pẹ̀lẹ̀, o awo para praticar, recebe um único ọ̀pẹ̀lẹ̀ que poderá ser de cabaça ou fava. A consagração do ọ̀pẹ̀lẹ̀ para estudos, envolve o ritual onde, o ọ̀pẹ̀lẹ̀ é alimentado junto com o Ifá do iniciado. Já o ọ̀pẹ̀lẹ̀ para consulta de clientes é submetido a um ritual completamente diferente, onde, o Bàbáláwo, recebe no mínimo dois ọ̀pẹ̀lẹ̀s, considerando que alguns odùs queimam o ọ̀pẹ̀lẹ̀.

18 – Sendo uma Ìyánífá, a mulher poderá ver o assentamento de Ìyá Òdù? Não. Nem mesmo sendo uma Ìyánífá, a mulher jamais poderá ver Ìyá Òdù.

19 – A pessoa que é umbandista ou candomblecista pode ser iniciada em Ifá? Sim. Pois, através da iniciação em Ifá, ela conhecerá seus èèwọ̀s, e saberá identificar claramente os Òrìṣàs, na qual ela deverá cultuar.

20 – Uma pessoa que não é feita para um Òrìṣà, pode ser iniciada e receber um assentamento? Sim. Não é comum, mas acontece de pessoas que não são feitas, serem iniciadas para um Òrìṣà específico, um exemplo é o Iṣẹ́fá, onde, a pessoa não é feita e recebe o assentamento de Ọ̀rúnmìlà.

21 – Em um Iṣẹ́fá, é assentado Èṣù, para o pré-iniciado? Sim. Dependendo do odù.

22 – Ọ̀rúnmìlà se alimenta de animais masculinos? Sim. Dos 256 odùs, em 8 Ọ̀rúnmìlà, se alimenta de animais masculinos.

23 – Coloca-se pena de agbe ou àlùkò na cabeça no ritual de Ìtẹ̀fá? Não. Um iniciado em Ifá é apresentado com uma pena de ìkódídẹ.

24 – Quantos ikins são necessários no assentamento de Ọ̀rúnmìlà? No mínimo dezoito ikins.

25 – Quanto tempo demora a cerimônia do Iṣẹ́fá? De uma hora a três dias, dependendo da orientação de Ọ̀rúnmìlà.

26 – Quem faz uma pré-iniciação, Iṣẹ́fá, recebe ọ̀pẹ̀lẹ̀? Sim. Em um caso específico quando o odù indica a necessidade de Ìtẹ̀lodù, o ọ̀pẹ̀lẹ̀ para praticar é consagrado para o uso de estudo até a preparação para o Ìtẹ̀lodù.

27 – Quem faz Ìtẹ̀fá recebe ọpọ́n e ìrọ́kẹ̀? Normalmente não, somente quem faz Ìtẹ̀lodù, recebe esses instrumentos que são usados por Bàbáláwos e Ìyánífás.

28 – A pessoa pré-iniciada segue o sistema de Ọ̀sẹ̀ no assentamento de Ọ̀rúnmìlà semanalmente? Não. A orientação do Ọ̀sẹ̀ semanal, é indicada para alguns odùs, em outros, Ifá alerta que o assentamento não deverá ser limpo, enquanto o compromisso assumido de um Ìtẹ̀fá, não seja realizado.

29 – Quem é submetido ao Iṣẹ́fá, recebe Idẹ Ifá? Sim. Como podemos observar no odù Ọ̀kànràn Ogbè.

30 – Os ẹbọs feitos no ọpọ́n seguem alguma regra? E quem pode fazer esses ẹbọs? Os Bàbáláwos e Ìyánífás, podem fazer ẹbọ rírù, seguindo uma regra básica, que consiste em seguir uma ordem pré-estabelecida dentro da Ẹgbẹ́, louvando Olódùmarè, Ọ̀rúnmìlà, os Òrìṣàs e os Antepassados da família. Cada família segue uma sequência, o Bàbáláwo recebe diretamente dos seus iniciadores os nomes e os odùs a serem louvados dentro da sequência da Ẹgbẹ́, assim como os odùs de Èṣù, que devem ser usados e os odùs transformadores de negativos para positivos.

 

Aula (15) - Mitos, Ritos


“Ao longo dos anos alguns mitos foram criados, nessa oportunidade tentaremos aqui auxiliar para que tais equívocos sejam esclarecidos...”

Ifagbaiyin Agboola

1 – Deve dar azeite de oliva para Ọbàtálá? Não. Não se usa azeite de oliva, popularmente conhecido como azeite doce, para nenhum Òrìṣà.

2 – Ṣàngó tem medo de Egúngún? Não. Ṣàngó, convive em perfeita harmonia com Egúngún.

3 – Existem vários Òrìṣàs, que não aceitam dendê? Não. Somente Ọbàtálá, não aceita dendê.

4 – Ọbàtálá, não aceita bebidas alcoólicas? Não. Ọbàtálá, não deve consumir vinho de palma.

5 – Deve-se colocar ọ̀bẹ em vários Òrìṣàs? Não. Somente Ògún é o dono da ọ̀bẹ, que serve para os outros Òrìṣàs.

6 – É obrigatório o uso de quartinha com água para todos os Òrìṣàs? Não. Em alguns Òrìṣàs, utiliza a quartinha com água, os principais são: Ọ̀ṣun, Yemọja e Ọbàtálá.

7 – Ògún pode ser arrumado em vasilha de barro? Não. Ògún poderá ser arrumado somente em vasilha de ferro ou ser assentado, jamais, em vasilha de barro.

8 – Lógunẹdẹ, pode ser arrumado em vasilha de louça? Não. Lógunẹdẹ, deve ser arrumado em vasilha de barro.

9 – Os búzios das vasilhas dos Òrìṣàs, devem ser abertos? Não. Os búzios abertos servem somente para o jogo, os búzios das vasilhas sempre devem ser fechados.

10 – Ọ̀ṣun aceita pombo? Sim. Os únicos impedimentos de Ọ̀ṣun, seriam o ìgbín e a banha de òrí.

11 – Èṣù pode ser assentado com pedra de Rio? Não. Jamais Èṣù deverá ser assentado com pedra de rio.

12 – Ṣàngó deve ser assentado com pedra de rio? Não. Ṣàngó, é assentado somente em ẹ̀dùn àrá (pedra de raio).

13 – Ìyá mi só de deve ser cultuada por mulheres? Não. O culto a Ìyá mi está ligada a fecundidade, sendo assim, não poderia haver fecundidade sem a presença de ambos os sexos.

14 – O culto Egúngún é praticado somente por homens? Não. Pois, toda mulher tem antepassados masculinos que devem ser homenageados.

15 – Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí é um cargo que todas as mulheres de Ọ̀ṣun, podem ocupar? Não. Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, é uma função da mulher do Bàbáláwo, independente do Òrìṣà que ela cultue.

16 – Existe qualidade de Òrìṣà? Não. O que existe são nomes diferentes atribuídos aos Òrìṣàs, devido a região e grupos familiares.

17 – Ṣàngó aceita obì? Sim. Porém, tem preferência por orógbó.

18 – O orógbó deve ser aberto com faca e descascado para oferecer ao Òrìṣà? Não. O orógbó não deve ser aberto com faca e nem descascado para oferecer ao Òrìṣà.

19 – O sacerdote pode iniciar seus filhos carnais? Sim. Não só pode como deve iniciar seus filhos carnais. Existe odù que fala sobre a iniciação dos próprios filhos.

 

Aula (16) - Mitos, Ritos E Ọ̀rúnmìlà II


1 – As pessoas que não foram feitas para o seu Òrìṣà, iniciados como se diz no Brasil, podem ser iniciadas no Culto Egúngún? Sim. Se após uma consulta a Ifá, houver a necessidade, uma pessoa poderá ser iniciada até como Ọ̀jẹ̀, pois, todas as pessoas possuem antepassados.

2 – Uma pessoa iniciada em Òrìṣà, pode ser iniciada como Ọ̀jẹ̀? Sim. Se essa for a orientação de Ọ̀rúnmìlà, uma mesma pessoa pode ser iniciada em vários Òrìṣàs, assim como, Egúngún, Ìyá mi, Orò, podendo também ser Ọ̀jẹ̀ ou até mesmo um Apènà Ògbóni, tudo depende do seu odù, assim como tem pessoas que devem ser feitas e outras somente iniciadas.

3 – Ifá é para todas as pessoas? Deveria ser, mas em nosso país as pessoas desconhecem essa necessidade, supondo-se que: o Òrìṣà é o veículo que irá te transportar por toda a vida, Ifá é o mapa da estrada, a orientação, o caminho pelo qual você deve seguir.

4 – Existe a necessidade de ter um Igbá Orí, para dar comida a minha cabeça? Não existe essa necessidade. Na realidade o Igbá Orí, deveria ser montado somente após a pessoa consultar Ifá e ter conhecimento de seu odù. Na consagração do Igbá é fundamental conhecer o odù e os Òrìṣàs que devem ser cultuados.

5 – Uma pessoa pode usar uma ọ̀bẹ em rituais de Òrìṣà, sem ser iniciado em Ògún? Não. Uma pessoa que não foi iniciada em Ògún, não pode usar ọ̀bẹ, assim como, uma pessoa que não foi iniciada em Ọ̀ṣun, jamais poderá atender alguém com o jogo de búzios e uma pessoa que não foi iniciada como Alágbè, jamais deve tocar um instrumento de ritual religioso que foi devidamente consagrado.

6 – Durante os rituais de feitura de Òrìṣà, pessoas que não foram feitas para aquele determinado Òrìṣà em questão, mas que são iniciadas em Òrìṣà, poderão participar? Uma pessoa iniciada, poderá participar de iniciação de Òrìṣàs, porém, jamais poderá participar de uma feitura de Òrìṣà.

7 – Qual a diferença entre ọ̀bẹs usados em rituais de Òrìṣàs? Toda ọ̀bẹ deve ser consagrada em Ògún, sendo assim, não existe diferença entre uma e outra, a diferença é uma opção de escolha ou uma questão de prática no uso, conforme o ritual que irá ser praticado.

8 – Quantos búzios devem ser utilizados no Ẹ̀rindílógún, para consultar os Òrìṣàs? O próprio nome já diz Ẹ̀rindílógún (dezesseis). O número dezesseis é muito importante na Religião Tradicional Yorùbá. Existem alguns casos que podem ser consagrados mais de dezesseis búzios, caso haja necessidade de substituição.

9 – Existe uma regra que deve ser seguida na ordem dos rituais para os Òrìṣàs? Cada situação é determinada por Ifá, se houver a necessidade de culto a um Òrìṣà que normalmente não é cultuado no dia a dia, devemos seguir a orientação de Ọ̀rúnmìlà, não existe uma receita, cada pessoa tem seu próprio Orí e cada Orí pode exigir um ritual diferente do outro, assim, como cada Òrìṣà.

10 – Toda pessoa tem um cargo na religião? Na religião como na vida de um modo geral, existem diferentes funções, mas cargos, poderão ser determinados somente por Ifá.

 

Aula (17) - Mitos, Ritos e Ọ̀rúnmìlà III


1 – É necessário ser feito para Òrìṣà, para ser iniciado no culto de Ìyá mi? Não. Ifá é quem determina essa iniciação, normalmente isso acontece quando aparece na consulta a Ifá, um determinado odù.

2 – Todas as pessoas podem ser iniciadas no culto a Ìyá mi? Não. Todas as pessoas, sejam homens ou mulheres, necessitam da indicação de Ifá, para tal iniciação.

3 – Existe qualidade de Òrìṣà? Não. Não existe qualidade e nem caminho de Òrìṣà, no Brasil, se usa muito essa expressão, porém, na verdade toda Ọ̀ṣun é uma só, o rio de Ọ̀ṣun em Òṣogbo é um só, existe sim, várias denominações para o mesmo Òrìṣà.

4 – Como fico sabendo se preciso ser feito para o Òrìṣà? Existe somente uma maneira de você saber se precisa ou não ser feito ou iniciado para um Òrìṣà, em uma consulta a Ifá ou através do Ẹ̀rindílógún.

5 – Preciso esperar sete anos para jogar búzios? Essa prática foi inventada no Brasil, na Religião Tradicional Yorùbá, o jogo de búzios (Ẹ̀rindílógún), é preparado no exato momento da feitura do Òrìṣà. Deve existir sim, a autorização para o atendimento, se a pessoa não estiver preparada para isso, o jogo deve ser usado para um contato pessoal do iniciado com seu Òrìṣà. A autorização para atender outras pessoas varia de pessoa para pessoa.

6 – Quantos anos são necessários para abrir uma casa de culto afro? Cada pessoa é uma história diferente, existem pessoas que nunca poderão abrir uma casa, porque não nasceram para isso. A dedicação e o conhecimento devem servir de base para essa autorização acontecer.

7 – Dentro do barracão, é verdade que os àbíkús tem apenas que serem confirmados no santo e não raspados? Mito. Existem várias pessoas que nasceram àbíkú que foram raspados e continuam suas vidas normalmente, o àbíkú pode ser feito, iniciado ou confirmado, dependendo da indicação de Ifá.

8 – Ìyá mi só pode ser cultuada por filhas de Ọ̀ṣun? Não. Todas as pessoas podem cultuar Ìyá mi, independente do Òrìṣà que seja feito.

9 – Como posso saber se sou àbíkú? Somente através de uma consulta a Ifá ou Ẹ̀rindílógún.

 

Aula (18) - O Homem, o Sacerdote e o Deus


“Quando uma pessoa procura um sacerdote, muitas vezes espera encontrar um Deus, e muito raramente aceita que ele seja um homem, ela procura milagres e o mais fácil, o óbvio, parece uma tolice e não uma solução...”

Ifagbaiyin Agboola

Confundir o sacerdote com um Deus é comum, mas a não aceitação do sacerdote como homem, isso sim, causa estranheza.

Para um grande número de pessoas é difícil separar o sacerdote do homem e entender que ele tem a sua vida particular.

As curiosidades são muitas e a maldade contribuem para uma enorme confusão, algumas pessoas não conseguem entender que o sacerdote também adoece, ama e tem problemas como todo ser humano.

É comum ouvir a frase absurda: “Se ele não tem nem para ele, como é que ele vai me ajudar a adquirir alguma coisa.” A incapacidade ou a ignorância, não permite que as pessoas compreendam que cada ser humano tem um odù e um destino, e que isso não implica diretamente na capacidade ou no discernimento do sacerdote na hora de analisar o problema do consulente.

Vamos analisar a seguinte hipótese: um Bàbálórìṣà, com um baixo poder aquisitivo, pode dar um Bọrí em uma pessoa que possui muito dinheiro?

Bem, alguns acreditam que caso isso aconteça a pessoa que tem muito dinheiro poderá ter prejuízos levando-o a ruína, na verdade, a falta de conhecimento provoca tais equívocos.

Cada pessoa tem seu próprio odù e seu destino, se uma pessoa que tem muito dinheiro, tomar um Bọrí, com um milionário ou com alguém sem dinheiro, não há diferença no aspecto financeiro.

Tudo que existe na terra nasce de um odù, alguns odùs beneficiam mais a situação financeira, como o caso do odù Ogbè Méjì, que é o odù mais rico que existe.

Em contrapartida, um sacerdote nascido em outro odù como um caminho de Òtúrúpọ̀n, a capacidade de cura é maior, então é bem possível que essa pessoa regida pelo odù Ogbè Méjì, com muita sorte, em um determinado momento de sua vida vai precisar muito da pessoa regida por Òtúrúpọ̀n, para lhe fazer um ebó para combater uma enfermidade.

Se não existir a pessoa com o poder de cura, com o àṣẹ para afastar a doença, o bem-nascido, regido por um belo odù, poderá perder sua vida e deixar de encontrar a cura para o seu problema. É como dizem os antigos: “o caixão não tem gavetas”, e todo o seu dinheiro não resolverá o seu problema de saúde.

Na cultura yorùbá, somente o odù Ọ̀ṣẹ́ Òtùrá, tem o privilégio de chegar aos pés de Olódùmarè carregando as nossas súplicas. Na Religião Tradicional Yorùbá, não se invoca Deus a todo o momento, é diferente das outras religiões, para isso temos os Odùs e os Òrìṣàs. Os sacerdotes são homens escolhidos pelos Òrìṣàs para estabelecer essa ligação entre o divino e o profano.

Em nosso país, sacerdotes enfrentam um grande número de proibições que em território Yorùbá eles desconhecem essas interdições, em razão do sincretismo religioso Yorùbá cristão criado no Brasil, podemos citar como exemplo o famoso preceito, onde, o iniciado precisa cumpri-los antes, durante e após a feitura de Òrìṣà. Confundir um sacerdote com um Deus é esperar dele milagres, um homem não faz milagres, nem realiza graças, isso é tarefa das divindades. Conforme o merecimento das pessoas algumas coisas podem ou não acontecer, acreditar no contrário é o mesmo que acreditar que nossa senhora é Ọ̀ṣun. O homem e o sacerdote nunca podem ser confundidos com Deus.


BIBLIOGRAFIA

 

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* Notas Sobre O Culto Aos Orixás E Voduns

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* OS NAGÔ E A MORTE Pàdé, Àsèsè e o Culto Egún na Bahia

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*Oríkì - Òrúnmìlá

Falokun Fatumbi

*Ifá a complete divination

Ayò Salamy

*Mitologia dos Orixás Africanos 1

*Ogum – Dor e Júbilo (nos rituais de morte)

SIKIRU SALAMI

*Dicionário Yorùbá (Nagô) Português

Eduardo Fonseca Júnior

*A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva

 

“Não me pergunte o que Ifá está fazendo por você sem que você saiba me dizer, o que você está fazendo pelo Ifá!”

Olúwo Ifábaíyin Awolola Agboola

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