sábado, 10 de abril de 2021

Curso Filosofia e Teologia Yoruba - Orisa Ogun



Escola Superior de Ifá (Èsì)

 Curso de Filosofia e Teologia Yorùbá

 Òrìṣà Ogun


 

Falar sobre Ogun é transitar sobre a história da própria humanidade. Na América tende-se a ter uma visão restrita sobre este Orisa, como ele sendo o senhor da guerra, do ferro, etc., não é errado falar isso, porém por sua vez é incompleto. Ogun transcende isso, ele permitiu que a humanidade avance, evolua e possibilitou que exista a civilização.

Sendo assim o caráter deste Orisa é muito mais social que antissocial, no entanto sua mitologia tem fatos que diminuíram algumas das características dele, e o tornou o guerreiro sanguinário que todo mundo conhece.

 

 Ogunda Meji

 Ogun é um Orisa Orile (da nação), isso quer dizer que em terra Yoruba, qualquer que seja a região, encontraremos culto a Ogun. Além disso, o culto pode ter variações, mais de um modo geral, a base sempre é a mesma.

Ogun como Irunmole tem diversos nomes, o mais conhecido tal vez seja Lakaye (quem piso o chão), isso se deve a que, segundo os versos de Ifá, ele foi quem abriu caminho para os outros Irunmoles virem tornar a terra habitável. Outro Oriki que faz referência ao mesmo fato é Osinmole (O imole que é adorado), ele ficou em posição de proeminência ante os outros Irunmoles por traçar o primeiro caminho do Orun ao Aye. Nesta história, Olodumare decidiu enviar alguns Irunmole para começar a vida no planeta, mas tinha um bosque muito espesso separando os dois mundos. O primeiro que foi enviado foi Ogun seguido de 200 seguidores, ele abriu caminho com suas espadas, logo limpou um acampamento para ele se assentar junto com os demais. Os dias se passaram e eles só podiam conseguir madeira, portanto seus seguidores começaram a adoecer. Ogun decidiu então voltar para Orun com eles. Olodumare perguntou o porquê de seu retorno, e Ogun explicou que o caminho estava traçado mais seu povo morreria de fome porque eles só poderiam comer madeira. Foi então quando Olodumare consagrou o nome de Baba Jigijigi (o pai que só come madeira).

Logo foram enviados Obatala e duzentos seguidores que falharam em sua missão, porque eles só levaram água, eles viveram meses mais começaram a adoecer e voltaram para Orun. Olodumare consagrou o nome de Baba Mumimumi (o pai que só bebe água).

O terceiro foi Orunmila que antes de empreender sua viagem junto com 200 seguidores , consultou Ifá e viu Ejiogbe. Ifá mandou colocar tudo o que a boca come num saco, ele assim o fez, quando chegou no Aye, ele encontrou a madeira de Ogun, que usou para trabalhar a terra, a água de Obatala, para poder regar, foi quando ele pegou do saco: milho, feijão, e diferentes alimentos e semeou na terra.

Desde aquele dia, é que tem alimento na terra que possibilita a vida no planeta, porém todos os Irunmoles reconhecem o fato de Ogun haver sido o primeiro dos Irunmoles que traçou o caminho para os demais.

Em outra história, Ogun é quem dá o fogo para a humanidade, isso marcou a evolução humana. Em concordância com o que a ciência explica, o humano se tornou mais inteligente a ritmo acelerado, depois que pôde cozinhar seu alimento, e formar assentamentos sociais primitivos. Isso tudo, elevou a expectativa de vida e possibilitou que o cérebro humano obtivesse mais nutrientes para um desenvolvimento muito parecido ao atual.

 

 Com respeito a isso Ifá diz em Ogunda meji:

Okiki

Ariwo

A dia fun Ogun

Ti yoo bimo kan naa

Ti yoo wusi kaye

Ebo ni won ni ko waa se

O si gbebo o rubo

Nje okiki o

Ariwo

Okiki omo Ogun kan

 

Tradução:

 Reputação

Clamor

Consultaram Ifá para Ogun

Quando Ogun teria um filho

Esse filho teria influência no mundo inteiro

Se aconselhou fazer ebo

Ele escutou e o fez

Agora reputação e clamor

É o que o filho de Ogun é

 

Nesse verso, Ogun iria a ter um filho, e ele foi consultar Ifá. Ifá indicou que seu filho seria aclamado no mundo inteiro, mais que deveria fazer 2 ebos, um para que o filho chegasse ao mundo de forma segura, e o outro para que ele tivesse boa reputação. Ogun só pôde fazer o primer Ebo, quando o filho nasceu, quem assistiu o parto, terminou ferida por pegar a criança. Nesse mesmo dia o mundo se sacudiu, e começaram a acontecer coisas estranhas, quando a criança estava indo tomar banho a água se evaporava.

Um dia Ogun sento ele embaixo de uma árvore e a árvore caiu de forma bruta, a reputação do filho de Ogun era muito ruim, e ninguém queria chegar perto dele. Um dia todos se reuniram na comunidade para pedir a Ogun que seu filho fosse levado para longe. Ogun largou tudo e foi embora com seu filho. Dias despois, a mesma comunidade que expulsou o filho de Ogun, começou a sentir sua falta, eles não podiam esquentar se, nem cozinhar, as feras vinham a noite e pegavam crianças, então decidiram ir em busca de Ogun para ele trazer seu filho de volta.

Ogun trouxe ele mais impôs condições para isso, ele pediu que seu filho fosse tratado com respeito, e que ninguém poderia chegar perto para não ser machucado por ele, a comunidade aceitou, e Ogun ensinou para eles como seu filho deveria ser tratado para que fosse útil mais sem perigo. O nome que deram para o filho de Ogun foi Ina (fogo), que se analisamos a etimologia da palavra, Ina pode ser interpretado como ato de espalhar-se, o ato de castigar fisicamente.

  

Ogunda Masa

 O certo é que nesta e outras histórias, Ogun sempre foi protagonista da supervivência e expansão da humanidade, em seguida das primeiras expansões, as necessidades dos povos mudaram, já com uma vida assentada, e o mínimo para sobreviver coberto. Os humanos seguiram sua natureza mais de um modo distinto.

A aparição do sentido da riqueza, fez com que os assentamentos buscassem território, que procurassem se expandir, assim começou a guerra, onde sim, Ogun forma parte preponderante do que logo seria chamado de civilização.

Se analisamos muitos de seus Orikis, como por exemplo, “Olomi nile feje we” (Aquele que tendo água fresca na casa prefere tomar banho com sangue) fala claramente do temperamento guerreiro de Ogun, mas isso tem que ser analisado num contexto histórico, onde a guerra foi a ferramenta da evolução.

Ali de forma mítica iremos encontrar uma das mulheres de Ogun, chamada Ijaranyin (a briga violenta). Ogun antes de ir para a guerra, convidou sua mulher para acompanha-lo, Ijaranyin consultou Ifa e saiu Ogunda masa, Ifa aconselhou fazer ebo antes de ir embora com seu marido, ela assim o fez, desde aquele dia Ogun vai com sua mulher para a guerra.

 

 Ifá diz assim:

Ogunda ma sa

Ijaranyin o gbodo se ojo

A dia fun Ogun onija ole

Ejemu oluwonran adi girigiri rebi ija

Igba ti n lo ogun igboro meku eseji

O mu Ijaranyin aya re lowo

Ebo ni won ni ko waa se

O si gbebo mbe o rubo

Nje Ogunda ma sa

Ijaranyin o gbodo se ojo


Tradução:

Ogunda não foge

A briga violenta não rejeita bloquear o covarde

Se consultou Ifá para Ogun aquele que briga com ladrão

O bebedor de sangue dono da corrente que sempre se prepara para brigar

Ele iria para a guerra quando tomo a Ijaranyin como sua esposa

Se aconselhou fazer ebo

Ele escutou e o fiz

Agora, ogunda não  foge

Ijaranyin não rejeita bloquear o covarde

 

Ogbe Sá

Devido a sua vida alterada, Ogun, conforme passou o tempo, começo a ter problemas de muitos tipos. Alguns antigos referem-se a que Ogun teria tido debilidade física por causa de muitas brigas, outros dizem que ele ficou débil por Abilu (feitiços) que seus oponentes faziam para debilitá-lo, já que nenhum podia vencer na luta com ele, foi o dia que Ogun foi consultar Ifá com Orunmila , Orunmila viu Ogbe sa, e recitou assim:

 

Ogbe sarara

Ogbe sororo

A dia fun Mariwo ope

Nijo ti n lo re te Ogun nifa

Igba ti ara Ogun o le

Ebo ni won ni ko wa se

O si gbebo nbe o rubo

Nje mariwo ope ogun te nifa

Ara ogun dide

Ori ogun di ota

Mariwo ope ogun te nifa

 

Tradução:

Ogbe sarara

Ogbe sororo

Se consultou Ifá para a palmeira

O dia que Ogun foi iniciado em Ifá

Porque o corpo dele estava fraco

Se lhe aconselhou fazer ebo

Ele escutou e o fez

Agora, com palmeira Ogun se início em Ifá

O corpo dele se fortaleceu

Sua cabeça amarrou os inimigos

Com palmeira Ogun se início em Ifa

 

Ogbe Odi

Existe muita controvérsia sobre o fato de que um Orisa seja iniciado em Ifa, mas o certo é que nós os Babalawos aprendemos muitos versos onde se fala da iniciação em Ifá dos Orisas. O que devemos entender é que, cada qual deve seguir sua tradição, se para sua família isso não procede, ótimo, mas isso não possibilita desmerecer a tradição de pessoas que tem um conhecimento diferente, porém válido.

 Ogun foi iniciado em Ifá  para poder fortalecer seu corpo, a história conta que depois ele foi próspero, e teve um período estável na sua vida, o fato de ele ser iniciado em Ifá não derruba sua grandeza, nem sua importância. O Isese (Tradição) é um caldeirão de cultos e todos interagem numa sintonia perfeita.

De fato, a relação entre Orunmila e Ogun foi além, no Odu Ogbe Odi, o mesmo Ogun deu o Ase (Autoridade) à Orunmila, para que assim, seus sacerdotes poderão sacrificar com o Obe. Como é sabido a base do culto a Ifa é a incidência sobre o destino humano, para isso as duas ferramentas mais efetivas são, Iwapele (Filosofia de vida que procura a conduta perfeita) e o Ebo (sacrifício), em razão disso que Ogun tem uma forte influência no culto. É muito difícil encontrar um templo de Ifá onde não exista culto a Ogun.

 

Com respeito a isso Ifá diz:

Abowada awo lode Orun

A dia fun Ogun

Lojo to nbo wa sode aye

O fi ori le odo Orunmila

Ki o le mo bi irin ajo naa

Se ma ari o ni agbara

Ati gba emi fun ijiya

Olorun ati orisa

Won ni ki o rubo

Ko to lo si ajo

Ko fi ada rubo si Orunmila

Ki Orunmila le fun ati awon omo re

Agbara ati gba emi

Gegebi etutu si Orisa

 

Tradução:

Abowada o Awo da casa de Orun

Consultou para Ogun

O dia que ele vinha para a terra

Ele falou que deveria ir para a casa de Orunmila

Para Ifá dizer como ter sucesso na sua missão

Ele falou que tinha o poder de quitar a vida

Foi o castigo de Olorun

E o sacrifício para Orisa

Ele devia fazer o ebo antes de ir embora

E oferecer sua faca a Orunmila

Para que Orunmila o entregasse a seus filhos

Para que eles adquirissem a autoridade

De quitar a vida

Em sacrifício para Orisa

Como explica o verso acima, o Babalawo tem a autoridade de fazer sacrifício para os Orisas, mas isso não quer dizer, que o Babalawo possa fazer o que não sabe fazer, as normas não mudam, a base de Orisa é conduta e conhecimento, sempre.

 

Cantigas

Outro aspecto deste Orisa, é a conduta inibida, Ogun não gosta de pessoas falsas, nem pessoas que não tenham valores morais de fato, ele pode ser perigoso para quem não tem pureza no coração.

Tem uma cantiga de Ogun que fala assim:

Ogun ma maa nje bimo ole

Kii je eyan oni la ri

Ogun ma maa nje bimo ole

 

Tradução:

Ogun não nos deixa ter filhos ladrões

Com certeza não teremos sorte

Ogun não nos deixa ter filhos ladrões

O aspecto da honestidade e a conduta certa no culto a este Orisa é fundamental, Ogun é o líder do clã dos caçadores, esta função social requer que a pessoa olhe pela comunidade antes que por si mesmo, isso fala claramente do que Ogun requer para seus devotos e seguidores. Ogun não aceita pessoas ruins, ele é sinônimo de verdade, se seu seguidor é verdadeiro ele não deixará cair.

 

A seguinte cantiga fala assim:

Laakaye ma nti wa subu

Ogun ma nma nba wa já

Laakaye ma nti wa subu

 

Tradução:

Lakaye não nos deixa cair

Ogun não tentes brigar conosco

Lakaye não nos deixa cair

 

Outra cantiga do culto a Ogun fala que este Orisa apoia as pessoas construtivas, que são determinadas fazendo bem.

A cantiga é assim:

Ijamba koni se atunnise

Biku bapa oni jamba aku atunnise

Ijamba koni se atunnise

 

Tradução:

Nada de ruim acontece para aquele que constrói

Se a morte mata a quem destrói

Nada de ruim acontece para quem constrói

Como tem se notado, as cantigas são simples assim como o culto a ele, mais não por isso deixam de ter um significado muito forte voltado ao caráter de um homem que tem que ser determinado, justo, bravo quando tem que ser, mais o principal de tudo, apegado na verdade.

 Ifá diz:

 

Só quem possuir bom caráter pode descobrir o mistério de como trabalhar a arte do ferro

Isso é Ogun

 Que nosso pai nos abençoe a todos.

Akogun Ifáṣọlá Ajobi Àgboọlà



BIBLIOGRAFIA

 

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* OS NAGÔ E A MORTE Pàdé, Àsèsè e o Culto Egún na Bahia

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*Oríkì - Òrúnmìlá

Falokun Fatumbi

*Ifá a complete divination

Ayò Salamy

*Mitologia dos Orixás Africanos 1

*Ogum – Dor e Júbilo (nos rituais de morte)

SIKIRU SALAMI

*Dicionário Yorùbá (Nagô) Português

Eduardo Fonseca Júnior

*A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva

 

“Não me pergunte o que Ifá está fazendo por você sem que você saiba me dizer, o que você está fazendo pelo Ifá!”

Olúwo Ifábaíyin Awolola Agboola

 

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