domingo, 11 de abril de 2021

Curso Filosofia e Teologia Yoruba - Módulo Orisa Yemoja



Escola Superior de Ifá (Èsì)

 Curso de Filosofia e Teologia Yorùbá

 Módulo Òrìṣà Yemoja


"Através dos seguintes módulos sobre Òrìṣà, os alunos da ÈSÌ poderão ter um enfoque claro e específico sobre alguns dos Òrìṣà mais conhecidos na América. O seguinte material não tem o objetivo de treinar pessoas, e não procura ter a verdade absoluta. É hora de os seguidores de Òrìṣà evoluírem, indo para uma perspectiva verdadeiramente tradicional, entendendo que pertencemos a uma tradição plural, e baseada na oralidade. Portanto, nada pode ser verdade totalitária, mais nada tem que deixar de ser verdade.

Akogun Ifáṣọlá Ajobi Àgboọlà



YEMỌJÁ

 
Yemọjá é um Òrìṣà muito conhecido, tanto na América, como na terra Yorùbá. Seu culto gira em torno da água, mas em primeiro lugar temos que fazer o primeiro esclarecimento, que servirá para o restante do presente material, Yemọjá é um Òrìṣà de rio, assim com a maioria dos Òrìṣà femininos vinculados ao elemento água.
O fato de este Òrìṣà haver sido, por um processo histórico, geográfico e até sincrético, vinculado ao oceano, em toda a América, não significa que tenhamos que omitir a verdadeira essência do Òrìṣà. Em todas as áreas e regiões onde hoje é encontrado culto à Yemọjá em terra Yorùbá, em todas, ela é vinculada ao rio.
Isso significa que todo o culto na América esteja errado? Não, claro que não, mas aqui devemos entender as diferenças entre o culto Tradicional Yorùbá, e as tradições nascidas na América, com seus folclores e suas culturas respectivamente. Em quase todos os cultos de Òrìṣà acontece uma readaptação, e isso na minha opinião pessoal, deve ser respeitado, sabendo que, o Candomblé, o Batuque e a Santeria Cubana, têm uma mesma origem, porém não uma origem só. Basta estudar atentamente os conceitos, práticas, e matrizes culturais, para dar se conta da miscigenação de culturas e crenças, nas respectivas práticas.
Esclarecido isso, compreenderemos que nada do que se pratica nos seguimentos de Òrìṣà é errado se tem ancestralidade, o problema começa quando, teorias, pensamentos, crenças próprias, e a desinformação tomam conta para adulterar a sabedoria ancestral.

 

Odu Ika Fun

O nome deste Òrìṣà pode ser traduzido como Yèyé ọmọ ẹja “A mãe dos peixes”. Porém, como os outros Òrìṣà, ela possui outros nomes que, geralmente, têm ligação com sua vida na terra, poderes, atributos e funcionalidade comunal.

O nome Yemọjá, como tal, é propriamente um nome espiritual, que trata de descrever seu domínio na água e sua diversidade. Neste aspecto temos que analisar a água como sendo a que proporciona recursos de habitat para muitas espécies no planeta. Portanto, Yemọjá num sentido simbólico e representativo, seria a sustentabilidade que a água proporciona para as comunidades, já que, a principal característica de um rio saudável, é que tenha peixe.

Tendo compreendido tal conceito, podemos dizer que, num sentido espiritual, Yemọjá veio ao mundo através da água fresca. Não no elemento líquido propriamente dito, mas no que a própria água irá representar para a própria criação.

Por essa razão, um dos nomes mais conhecidos de Yemọjá é Oluweri, que poderia ser traduzido como “A chefe que lava as cabeças”. Esse é um sinal claro de que Yemọjá seria a funcionalidade espiritual da água num sentido amplo.

Ifá fala sobre isso no Odu Ika fun:

Tutu dodo

Tutu nini

A dia fun Oluweri magbeti (Yemọjá)

Igba n torun bo waye

Ebo ni won ni ko se

O si gbebo mbe o rubo

 Nje, tutu laa ba Odundun

Tutu laa ba Tete

Tutu ni ti Rinrin

Tutu dodo

Tutu nini

Ile oluweri kii gbona

 

Tradução:

Tutu dodo

Tutu nini

Consultaram Ifá para Oluweri Magbeti (Yemọjá)

Quando vinha do Orun para o Aye

Eles aconselharam fazer ebo

Ela ouviu e o fez

Agora, o Odundun (uma folha) é encontrado na frescura

O Tete (Uma folha) é encontrado na frescura

O Rinrin (uma folha) tem a frescura

Tutu dodo

Tutu nini

A casa de Oluweri nunca é quente

O verso acima explica claramente que quando Yemọjá veio ao mundo sua contribuição foi a frescura, mas devemos entender o que de fato é uma vida fresca para a cultura Yorùbá. A frescura é uma forma confortável de viver, onde a conformidade, o gozo, e a calma são necessárias para ter um conforto com nós mesmos. Foi graças a Yemọjá ter feito o ẹbọ recomendado, antes de vir na vida física, que hoje podemos diferenciar o que nos conforta.

Outro nome muito popular de Yemọjá, que refere ao mesmo sentido, é Awoyo, que pode ser traduzido como “Aquela que nos cuida enchendo-nos”, em referência à satisfação. Nesse caso, a última parte da palavra e (Estar repleto e satisfeito). O termo Awoyo é de fato muito conhecido na América, só que aqui se perdeu o autêntico significado literal, e normalmente é atribuído a ter relação com Yọ̀, que seria, estar feliz ou contente, mudando por sua vez, o sentido místico e espiritual do termo.


Odu Irosun Okaran

Se vamos falar da origem de Yemọjá como Òrìṣà, sempre encontraremos algumas divergências, dependendo das regiões e até de quem transmite o conhecimento. Isso para quem é seguidor da cultura de Òrìṣà, não é limitante, pelo contrário, nos ensina a entender Òrìṣà de muitas formas possíveis, no sentido espiritual, cultural, social e até pessoal. Entretanto, o mito mais conhecido e aceitado é sobre o casamento de Yemọjá com Okere.

Sobre isso, Ifá fala no Odu Irosun Okanran assim:

Kawo fun mi

Ki n kase fun o

A dia fun Omi moja elewi

Eyi ti nse obinrin Okere

Ebo ni won ni ko se

O si gbebo mbe o rubo

Nje da omi moja elewi

Duro fun mi

Oke ganga

Oke ganga

Da omi moja elewi

Sure wa owa gbami lowo ajogun

Arira gagaga

Sure wa owa gbami lowo ajogun

 

Tradução:

Me de dinheiro

Tenho saudades de você

Consultaram Ifá para Omi moja Elewi

A que é mulher de Okere

Aconselharam que fizesse ẹbọ

Ela ouviu e o fez

Agora, segura a Omi moja Elewi

Montanha poderosa

Montanha poderosa

Segura a Omi moja Elewi

Vem para me resgatar de todo mal

O raio poderoso

O raio poderoso

Vem para me resgatar de tudo mal

 A história conta que Yemọjá era chamada de Omimoja elewi. Omimoja era seu nome particular, e Elewi seria porque o Ewi Ado (rei de Ado) a haveria pegado como filha e criado. Ela era uma jovem muito bonita e curiosa, que gostava de ir ao bosque para observar a natureza.

Mas um certo dia, encontrou no bosque um homem que não parecia ser daquela região. Ela perguntou seu nome e ele disse que se chamava Okere OnisakiOkere o rei de Saki”. O mito conta que ali começou um cortejo da parte dele, que durou vários dias, até que um dia Omimoja Elewi, propôs para Okere ir pedir o consentimento de seu pai, o Ewi Ado, para assim passar pelos ritos de matrimônio.

Okere aceitou e foi falar com Ewi Ado. Depois de Ewi aceitar e abençoar  o matrimônio, tanto Omimoja Elewi como Okere fizeram um pacto de respeito mútuo, Omimoja pediu para que ele nunca zombasse dos seios dela, já que eles eram muito proeminentes, em contrapartida, Okere pediu para Omimoja nunca entrar em um quarto secreto que Okere tinha na sua casa, onde guardava roupas de guerra e diferentes magias.

Ambos combinaram e aceitaram, até que um certo dia, Okere deveria ir em expedição de caça, e no meio do caminho, ele percebeu que iria chover. Se lembrou que a roupa de guerra dele havia ficado no tempo e não poderia ser molhada pela chuva, ele então decidiu voltar. Nesse momento Omimoja percebeu que a roupa devia ser levada para dentro de casa. Então sabendo que o marido não queria que nenhuma mulher tocasse na roupa nem entrasse no quarto, pegou um pau comprido, e usou para transportar a roupa para dentro da casa.

Já estando dentro de casa, ela usou o mesmo pau para mexer a roupa dentro do quarto, porém, sem adentrá-lo. Nesse momento Okere chegou, e encontrou a Omimoja parada na porta do quarto, ele embraveceu e começa a insultar lá, zombando inclusive de seus seios. Omimoja ficou muito humilhada e triste, e nesse momento decidiu terminar com o matrimônio. Saiu de casa só levando sua bacia com tinta para tecidos.

Quando Okere foi informado do que realmente aconteceu, ele foi em busca dela. Omimoja, ao chegar ao um ponto chamado Oke Ogun, percebeu que seu marido vinha atrás dela, e virou a bacia com tinta nesse lugar. Nesse momento ela se transformou em rio. Okere tentou alcança-la, mas ela se esquivou dele.

É por isso que até hoje o rio Ògùn bordeia as montanhas nessa região, e até os atuais Onisaki (Rei de Saki) não podem olhar o rio, pois acredita-se que Yemọjá segue ofendida desde aquele dia.

 

Odu Iwori Meji

Outra bela história fala da preferência de Yemọjá pelas crianças, já que, em certo momento ela não podia ter filhos e era seu único desejo, ela foi consultar Ifá, e o Bàbáláwo recomendou fazer ẹbọ.

Sobre isso, o Odu Iwori Meji fala assim:

O n wo mi, mo n wo o

Ta lo sehun ninu awa

A día fun Yemoja ataramagba omose lodo sigidi legbodo

Eyi to yagan to yo lopaara pelu o romo lehin adie

O bu puru sekun, o ni eye oko se n bimo juni lo

Won ni kara nle ebo ni ko se

O si gbebo o rubo

Ko o pe ko o jina

Ka wa bani ni jebutu omo

 

Tradução:

Você me olha, eu te olho

Que tem a culpa entre nós?

Foram os que consultaram Ifá para Yemọjá

Ataramagba omose lodo sigidi legbodo (Oriki)

Ela viu muitas nascentes de água detrás de uma galinha

E ela gritou porque uma galinha teria mais nascentes que ela

Eles aconselharam fazer ebo

Ela ouviu e o fez

No final ela foi abençoada  com muitos filhos

Nessa história, foi recomendado à Yemọjá fazer ẹbọ com muitos potes brancos e comida feita a base de vegetais. Ela fez tudo conforme os Bàbáláwo disseram. Não passou muito tempo até que um certo dia, ela começo a ter muitos filhos, um após o outro.

Ela guardava cautelosamente os potes brancos num lugar especifico da casa, mais um dia seus filhos brincando pertos dos potes, quebraram a maioria de eles. Os demais presentes no momento pensaram que ela iria enfurecer.

Nesse momento Yemọjá foi avisada do que havia acontecido, e foi rapidamente até o lugar, na hora de ela chegou e viu todos seus filhos brincando fez com que ela ficasse muito feliz. Desde aquele dia, se fala um Oriki, Yemọjá Awoyo olomo agba sere que seria traduzido como “Yemọjá aquela que olha nossa satisfação, a ancestral mãe que fica alegre”.

 

Odu Osa Bara

Yemọjá na terra Yorùbá é tratada com muito amor e carinho, como se fosse a mãe que tudo perdoa de seus filhos. Mas alguns sacerdotes falam que ela pode as vezes ser severa com seus seguidores, já que ela pode perdoar erros, mais nunca a malícia.

Como componente litúrgico em seu culto, podemos observar que ela é um Òrìṣà Funfun, onde predomina o branco em seus rituais e Ojubo. Yemọjá de fato gosta de comida branca, como por exemplo, o Iyan (Massa batida de Inhame), egbo (Milho branco cozido), Ekuru funfun (Pudim de feijão sem condimento). Em seus templos sempre acharemos potes com água do rio, muitas vezes pintados com Efun. 

Sobre algumas das preferências de Yemọjá, Ifá ensina no Odu Osa Bara assim:

Osa bara muta

A dia fun Onisanganhin 

Omo agbon ibu nla sowo

Igba ti n fomi soju sugbere aje

Ebo ni won ni ko se

O si gbebo mbe o rubo

Nje, bo riyan a njo

Yemọjá!!!

Bo ragbo a nyo

Yemọjá!!!

Yemọjá ni ogun n gbe Onisanganhin  bi ota romi

 

Tradução:

Osa Bara muta

Consultou Ifá para Onisanganhin

O filho de quem pega água da nascente para ter muito dinheiro

Quando ele se lamentava de não ter riqueza

Foi recomendado a fazer ẹbọ

Ele ouviu e o fez

Agora, se eu vejo Iyan estou dançando

Yemọjá!!!

Se eu vejo um carneiro estou feliz

Yemọjá!!!

Yemọjá é a medicina que bendisse ao Onisanganhin como o rei da água.

 

Seguramente a última parte desse verso de Ifá vai soar muito familiar para quem faz parte do culto de Yemọjá, já que é um canto bastante conhecido.

“Yemọjá baale odo omi lola ko kii won nile wa”

Eepa Omi ooo

 

“Yemọjá a chefe do rio, a água da prosperidade nunca falta na  nossa casa”

Viva a Água

 

Akogun Ifáṣọlá Ajobi Àgboọlà



BIBLIOGRAFIA

 

AWODIRAN; A. Ifá, Ohun enu Olódùmarè

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* IFÁ DIVINATION –

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* Ewé: o uso das plantas na sociedade ioruba

* Orixás, Deuses iorubas na África e no Novo Mundo

* Notas Sobre O Culto Aos Orixás E Voduns

* Saída de Ìyàwó

Pierre Verger

* OS NAGÔ E A MORTE Pàdé, Àsèsè e o Culto Egún na Bahia

Juana Elbein dos Santos.

*Oríkì - Òrúnmìlá

Falokun Fatumbi

*Ifá a complete divination

Ayò Salamy

*Mitologia dos Orixás Africanos 1

*Ogum – Dor e Júbilo (nos rituais de morte)

SIKIRU SALAMI

*Dicionário Yorùbá (Nagô) Português

Eduardo Fonseca Júnior

*A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva

 

“Não me pergunte o que Ifá está fazendo por você sem que você saiba me dizer, o que você está fazendo pelo Ifá!”

Olúwo Ifábaíyin Awolola Agboola

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